Haiti e Pirajussara

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Alguém por aí curte uma ironia e nem é das finas.

Está faltando água. No entanto, lá fora, chove há meses e inundações acontecem todos os dias nesta terra asfaltada.

Desde que eu era pequena, ter a rua asfaltada era considerado um tremendo up-grade. Todo mundo queria. O bairro inteiro asfaltado, então, era quase motivo pra ser considerado classe alta.

Hoje está tudo asfaltado. Inclusive quintais das poucas casas térreas são cobertos por piso. Plantas só ornamentais, daquelas que “não dão trabalho”.

Quando compramos esta casa mandei arrebentar todo o piso do quintal. Transformei tudo em área verde. Plantamos na calçada inóspita nove árvores. Tá legal, tudo errado e sem o menor planejamento, porque a gente só tinha mesmo boa intenção. Resultado: hoje tenho um flamboyant na calçada que mais dia menos dia levantará a casa junto com suas enormes raízes e mais quaresmeiras e sibipirunas. E, é claro, um altíssimo pau-ferro que me esconde dos olhos xeretas do Google. Vista de cima, pelo Google, minha casa é só um amontoado verde.

As pessoas também não percebem que aquele pacote de salgadinho, tão pequenininho, que elas mecanicamente enrolam na mão e jogam pela janela do ônibus ou do carro vai se juntar a milhares e entupir todas as bocas de lobo e córregos. E, é claro, inundar tudo na primeira chuva.

Isso tem a ver com psicologia de massa e psicologia do indivíduo. Em grupo as pessoas se sentem fortes e corajosas. Sozinhas sentem-se pequenas e frágeis. O que é um pacotinho que eu joguei? Uma bituca de cigarro? Nada. Sou tão pequenininha…

Mas nestas enchentes, olhando os piscinões e ruas alagadas, perco a conta do lixo e das pets.

Somos pequenos sozinhos mas somos muitos. 11 milhões de pequenos fazem um tremendo estrago quando juntos.

Será que não dava pra jogar o lixo no lixo?

Estou mal-humorada, eu sei. Mas eu gostaria de tomar banho. E ir ao banheiro sem culpa. E escovar o dente sem ter que engolir a pasta.

E não ter que engolir político corrupto falando em “desastres da natureza”, pra justificar Haiti ou Pirajussara. Sim, porque se a desgraça de um não se compara com outro, por outro lado, é tudo a mesma face da velha moeda. Pobreza, desinformação, corrupção.

2 thoughts on “Haiti e Pirajussara

  1. Estava pensando nisso ao ler sobre toda essa chuva e os problemas – que bem conheço – que ela provoca na cidade. Acho que estava na hora de descanalizar todos os rios, riachos e córregos de São Paulo e obedecer os 25 mts de cada lado sem construção.
    Enquanto isso, o frio faz esculturas por aqui. :)

  2. querida, to num mal humor suíno, tb, de olhar em volta e ver o rio de janeiro alagado, água pelos joelhos, e olhar pra cima e ver a cidade toda cercada de favelas e mais favelas e mais favelas. A impressão que eu tenho é que em dez anos, as favelas vão estar até na encosta do pão de açúcar e numa dessas chuvas, todas escorregar dos morros e soterrar a cidade. E ninguém terá visto o que aconteceu, nem saberá porque… ai, q ódio!

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