cocoricó urbano

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Aqui perto de casa havia um galo. E algumas galinhas. Moravam todos eles no jardim de uma casa térrea, há uma quadra daqui. E dormiam nas árvores. Meio esquisito, mas era assim.

De noite, ou madrugada, eu ouvia o galo. Ele acabava me acordando, mas como não sou galinha nem lhe devo ( a ele, ao galo) qualquer obrigação ou obediência, eu não dava bola e voltava a dormir. Nunca me atrapalhou, ao contrário, sempre achei o canto bucólico, me trazendo lembranças de noites outras passadas no campo.

Aqui, no meio desta cidade maluca, era um plus. Um toque non sense pra dar algum sentido nesta vida agitada.

Agora não estão mais lá. Nem ele, o galo, nem elas, as galinhas.

Como aquela história de fuga das galinhas é só um filme bonitinho, não creio que elas tenham fugido, embora pudessem. O portão da casa volta e meia ficava aberto e a gente, ao passar na rua, dava de cara com alguma delas tentando ciscar no asfalto, coitada.

Eu podia parar e perguntar aos donos da casa que fim levaram o galo e elas, as galinhas.

Podia, assim como podia estar matando, estar roubando, etc, etc, mas não acho que fique bem. Nem matar, nem roubar, nem o etc, nem perguntar numa casa que não conheço os donos, que fim deram aos seus galos e galinhas. Acho um assunto assim, como direi, muito pessoal.

Então fico fazendo o que mais gosto de fazer: imaginar.

Terão sido comidos num festim macabro?

Terá o galo virado afinal uma sopa muito da dura, depois de horas no fogo? Galo dá sopa, sim, mas leva um tempão cozinhando.

Terá se transformado num jantar refinado, um coq au vin?

Terão sido levados todos para um sítio, onde viverão felizes até que a panela os leve desta pra melhor?

Terão sido recolhidos pelo centro de zoonoses, alegando que galinheiro no Morumbi, só no sentido figurado?

Quem sabe?

Mas sinto falta daquele cocoricó de madrugada. Eu me sentia feliz em poder virar pro lado, pensar, que se dane o galo e voltar a dormir…

3 thoughts on “cocoricó urbano

  1. O Caruso canta todos os dias neste período do ano. Ontem ele começou às 04:30 h., 20 minutos antes do sol nascer e só parou às 21:15 h. Que fôlego!

    Quando eu morava em Ipanema, tinha um galo que cantava todas as madrugadas. Um vizinho combinou de fazer uma canja. Me recusei de capturar, matar e limpar o galo, mas faria a canja. Semana depois, alguém toca a campainha à meia-noite. quase todos os moradores do prédio – jovens, como eu na época – estavam lá com um galo abatido e limpo. A canja foi pouca.

  2. Sei lá, né, Maray? Galo pode fazer tanta coisa para desaparecer! Vai ver foram presos por fazer arruaça na madrugada. Em São Paulo, eu não escutava galos, na madrugada. Mas, escutava carros com escapamentos abertos, freadas de ônibus na esquina, gritarias de bêbados, sirenes da polícia… Tudo mudou! Vim para o sítio e ouço galos, saracuras, siriemas, sabiás… Que coisa mais linda! Talvez, se eu ouvisse um galo cantando, nas madrugadas, não me mudasse de São Paulo. Talvez…
    Abração.

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