o muro da dona Carolina

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No começo eram só as nossas duas casas, a nossa e a da dona Carolina. Um muro que não era muro. Uma cerca de arame farpado.

Mudamos com a casa ainda sendo construída, meus pais, minha avó, meu irmão do meio e eu. Nenhum bicho, que nunca me foi permitido.  Até me darem aquela tartaruga, aquela chata da Raquel, que eu não queria nem ela tampouco a mim, tanto que fugiu na primeira oportunidade, mas isso são histórias já passadas e contadas.

Com a finalização da casa, foi feito um muro. De dois metros de altura. Um belo muro, largo como eram os muros de antigamente. Onde eu pude treinar meus dotes de equilibrista. Pena que não treinei o suficiente, desequilibrada que continuo sendo, até hoje, mas isso também são histórias que não vêm à crônica nem ao caso.

Mas dona Carolina era mineira. Das boas. E minha avó era italiana, do sul da Itália. Das boas.

Não podia haver muro entre elas. Conversar aos berros sem se ver? Pra minha avó, napolitana, podia ser. Mas não pra dona Carolina, mineira mansa, de conversa baixa.

Fez-se então a luz! Não exatamente a luz, mas um portão entre as duas casas. Que me servia pra visitar o galinheiro da dona Carolina e seus cinco cachorros, carente que eu era de bichos.

Que me servia pra filar a bóia na vizinha e ser apresentada ao quindim, ao sagu, aos doces de tacho.

Com o tempo, novas casas surgiram na rua. A rua foi asfaltada. Minha avó foi ficando mais velha e sossegada, com as pernas mal lhe permitindo ir ao sol, voltar do sol.

O portão foi fechado e murado.

Dona Carolina mais quieta. As galinhas foram comidas. Os doces rarearam. Os cachorros trancafiados em canil. O quintal de coradouro de roupas e galinheiro livre, cimentado pra “facilitar a limpeza”.

E eu, bom, eu cresci.

Mas não esqueci.

6 thoughts on “o muro da dona Carolina

  1. O tempo passa mas as coisas boas que nos ficam da infância nunca se esquecem. O final não foi muito feliz nem para os cachorros nem para as duas senhoras que o tempo foi virando idosas. Mas a menina crescida ficou com a história para contar.

  2. Ana Silvia

    hummmm…Recordação é uma das coisas boas da vida, mas a idéia de que alguém pode vir a mudar a organização da sua casa, não gosto. Interessante o que chama a atenção no seu interior qdo se lê.

  3. Gosto de quintais de cercas e galinhas. Queria ter conhecido a tua avó e a dona Carolina. Com certeza ia filar uns doces também.

    🙂

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