vendedores de porta em porta

Menina, esse espanador está perdendo as penas! Quando será que vêm os ceguinhos?

Vocês não têm idéia do que é isso, né? É preciso ter mais de cinqüenta anos, pelo menos, e ter morado em periferia de Sampa. Não sei se os ceguinhos vendiam em outras regiões.

Sim, porque os ceguinhos, como eram carinhosamente chamados – o que hoje seria considerado politicamente incorreto – apareciam a cada dois meses, mais ou menos, na porta de casa vendendo “coisas peludas”, como eu achava. A saber, espanadores e vassouras de pelo, tanto pra varrer o chão quanto aquelas pra tirar teia de aranha dos cantos do teto.

Hoje tudo acabou. Não posso chamar ceguinho de ceguinho. Não existe mais vassoura de pelo de verdade, daquelas repolhudas. Espanador nem pensar e tenho minhas dúvidas se as aranhas ainda fazem teias nos cantos do teto.

Aliás, existirão ainda aquelas aranhas?

Mas naquele tempo havia os ceguinhos. Que vinham acompanhados de um garotinho, geralmente, que esse sim,  via. Acho que eles eram do instituto dos cegos, ou algo assim. Eram ultra  simpáticos e deviam ser barateiros, porque minha mãe não era de abrir a mão com facilidade, por mais que se condoesse com os ceguinhos trabalhando debaixo de sol e chuva.

Outros que apareciam quase com dia marcado eram os turcos da prestação. Que encontravam no meu pai um freguês duro de roer.

Meu pai comprava deles ternos brancos de linho. Para ele e para meus irmãos.

E pechinchava.

E pechinchava. Não fosse ele mesmo um vendedor da Ladeira General Carneiro, quase a vida toda trabalhando com “ os turcos”. Não, naquela época a gente não era nada politicamente correto…

E havia também os ciganos. Aliás, ciganas. Menina, vai já lá pra dentro! Avisava minha mãe, apavorada. Os ciganos tinham fama de raptores de criancinhas. Eu já disse que isso foi umas tantas décadas antes do politicamente correto nos avassalar.

Eles vendiam colares, correntinhas, medalhinhas e braceletes. Tudo de ouro. Roubado, provavelmente, segundo minha incorreta e preconceituosa mãe.

Eu ficava olhando ela dizer que não queria nada, por trás da janela da sala. E adorava aquelas roupas. E adorava aquelas cores. E nem ia achar de todo mal se elas, efetivamente, raptassem criancinhas.

Mas elas nunca deram bola pra mim.



This entry was posted on Thursday, January 7th, 2010 at 9:04 pm and is filed under Uncategorized. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

3 Responses to “vendedores de porta em porta”

  1. Alziro Patafisico

    Eu também sempre sonhei ser raptado por ciganos, nunca rolou, e também morro de saudades das vassouras de pelo(cruzes!)

  2. mfc

    Pois… outros tempos!
    Mas como vês, no essencial, nada mudou… para melhor!

  3. Marília

    É verdade. Os ciganos tamém povoaram o meu imaginário infantil.
    Depois de “grande”, namorei um músico que foi contratado, junto com a banda, para tocar em um casamento cigano (as comemorações duraram 7 dias), lá pelos idos de 197… e, é claro, fui junto.
    Achei bacana. Uma lona enorme, com uma fileira de mesas de cada lado, que mais pareciam balcões, abarrotadas de comidas.
    Me diverti, comi demais e desmistifiquei o passado.

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