pegando no tranco

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Todo começo de ano é difícil.

Todo fim de ano também.

O que provavelmente deve servir pra mostrar que sou uma mulher de meios. De meios de ano.

No começo do ano, como agora, demoro efetivamente pra pegar. Pareço  aquele motor a álcool, dos primeiros carros, que a gente ligava e ainda voltava pra cama pra dormir mais um pouco enquanto ele “esquentava” na garagem. Eu também demoro pra pegar. Fica sempre uma vontade de quero mais. De quero mais festa, de quero mais passeios, de quero mais gente animada, se cumprimentando pelas ruas.

Agora que o ano está começando, quem já “pegou” não se cumprimenta mais. Não sorri a toa. Não fica parado esquecido da vida, olhando criança brincar com brinquedo novo.

As pessoas começam a lembrar que tem conta pra pagar, que tem que fazer o que vinha adiando por conta das festas, que agora não tem mais desculpa. E ficam mal-humoradas.

Como aliás, ficarão o resto do ano.

Não gosto, definitivamente, de começos de ano.

Por outro lado, os fins de ano também não são bons. Porque a gente se acostumou com aquele numero da data, que punha nos cheques.

 Porque mais um ano tinha se passado e o tempo vai ficando pequeno.

Porque muita gente querida não estaria mais aqui por ocasião das festas.

Porque afinal, ainda não foi nesse ano que eu ganhei na loteria.

Mas também não foi nesse ano que eu joguei.

Enfim, fim de ano também não é lá aquelas coisas.

Bom mesmo é o meio.

 Porque tem o inverno.

Porque já passou a loucura do fim de ano e ainda não começou a loucura do fim de ano.

Porque junho e julho tem festa junina e forró.

Porque não se fazem grandes mudanças no meio do ano nem se criam grandes expectativas.

Porque assim, afinal, a vida fica mais mansa.

E eu gosto muito de vida mansa.

2 thoughts on “pegando no tranco

  1. E eis, emersa da passagem de ano que vitima tantos números e datas, tantos cheques e contracheques, a Maray, cronista dos diários de todos os absurdos e cotidianos, a dama sem receios do detalhe flaubertiano que viajou para o pós-moderno. Volta e meia é preciso não lê-la, só para voltar aqui e receber seus depoimentos com a força que o cotidiano tem, quando potencializado pela ausência, por algum esquecimento que o embotamento proporciona aos viajantes de si. Além disso, ano novo é aceno de futuro, que se nutre de passados, dos quais você não tem pejo de nos fazer luzir os lampejos mais doces, imaginados e lembrados na atmosfera dos dias contados a batom e caneta. Obrigado por mais um post, de mais um ano, de mais uma expectativa grata. 2010 carnavalesco para você, em todos os dias.

    P.S.: acho que violo a etiqueta mandando recados em meio a comentários de posts, mas vou arriscar, só desta vez: preciso do seu endereço para lhe enviar um exemplar do meu livro de contos Itinerário de uma ausência. Envie-o, por favor, para herbert.farias@gmail.com, que eu cacei por toda parte e não encontrei seu e-mail. Abraços.

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