autodidata

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Tendo a achar que o autodidata é só um mal agradecido que não reconhece que teve algum tipo de professor.

O fato é que todos os autodidatas que conheci sempre tiveram um orgulho impressionante disso. Como se fosse um mérito especial o terem aprendido sozinhos alguma coisa.

Mas isso não existe! Primeiro, porque a gente dificilmente está sozinho. O que não chega a ser um  mérito, só uma constatação.

Sempre há alguém pra onde a gente olhe que nos ensina alguma coisa, mesmo que não seja essa a intenção.

Eu aprendi com minha mãe a não esquecer de beijar meus amores quando sentir vontade. Porque depois posso esquecer. Minha mãe esquecia. E era duro pra gente lembrar e reafirmar na memória que ela gostava da gente, só não sabia demonstrar. ISSO, a gente teve que aprender a duras penas. Não creio que ela quisesse nos ensinar isso. Mas ensinou.

Às vezes a gente aprende pelo contrário, não pela coisa diretamente.

Também aprendi a cozinhar. Mas tive professores. Mesmo que eles nunca tenham querido me ensinar, na medida em que não me enxotavam da cozinha, eu podia olhar.

Tá bom, a gente aprende errando, também. O método científico também é muito bom pra reter aprendizado, pelo menos pra mim. Uma experiência que eu posso repetir da mesma forma fica gravada na minha memória bem mais. Pena que na cozinha o método científico – de novo, pelo menos pra mim – tenha se revelado um tédio. Detesto repetir coisas. Gosto do estilo Zeca Pagodinho adaptado na cozinha: deixo a geladeira me levar. Conforme o que tiver lá dentro, traço o “do dia”.

Certas frases que aparecem soltas num papo informal são capazes de me marcar pro resto da vida. Venham de quem vier. Sei lá por quê. Acho que por algum motivo respondem a alguma necessidade interna ou correspondem a algum sentimento. A questão da identificação.

Quando descubro alguma coisa que sinto da mesma forma, a ficha cai melhor do que a maçã do Newton. Pelo menos, com mais estardalhaço. E aí a memória se encarrega de eternizar a frase.

Já os ensinamentos advindos de professores formais, esses são passageiros. Ficam quando preciso deles, depois esqueço. De qualquer forma, aprendi com os professores formais saber procurar informações.

Tá aí: essa foi uma coisa que minha mãe ensinou. Sempre me dizia: se você se perder, pergunte a alguém mais velho. Decore o endereço onde vai e pergunte.

Esse é um ótimo ensinamento do qual nunca me esqueci.

Decorar pra onde vou e, em caso de perda, perguntar.

Isso vale pro meu terapeuta, pros meus amigos, pra qualquer um que pareça disposto a ouvir.

Pergunte.

Porque sozinho a gente dificilmente fica.

3 thoughts on “autodidata

  1. Fiquei pensando em quantas coisas aprendi sozinho, mas só consegui lembrar de roncar, espirrar e coisas assim. Nada do que se vangloriar. Mas aprendi muito nesta vida e continuo aprendendo. Feliz de quem consegue aprender com o erro dos outros, mas a lição não será tão forte que aprender errando. Vou estudar.

  2. Vera

    Interessante!! Também descobri, quando precisei, que aprendi a cozinhar (o pouco que sei!!) vendo a minha tia cozinhar, apenas para lamber as panelas e formas. Com a minha mãe aprendi letras de músicas, de tanto ouvi-la cantar, sem nunca ter prestado atenção. Com o tempo vamos descobrindo que somos como colcha de retalhos, feita na maioria das vezes, desses momentos de distração.

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