ver por dentro

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Certa vez, meu tio Haroldo, casado com a irmã de minha mãe, trouxe-me um aparelho de “raios X”. A gente punha o cartãozinho- pois era de um cartãozinho que se tratava- na frente do que se queria “radiografar” e a coisa aparecia. Os ossos, eu achava.

A coisa não passava de um pega trouxa: uma cartão de papelão contendo uma pena de galinha. Olhando por uma fresta do papelão, a sombra da pena sugeria um osso. Meu tio adorava invenções de camelô e eu adorava meu tio. Ah, que saudades da minha ingenuidade!!

Mais tarde tive que tirar chapas de pulmão todo ano, por conta da escola que as exigia. Eu sempre ficava preocupada com esse negócio de “ver por dentro”. Fumante desde os doze anos de idade ( parei aos 50) eu sempre achei que isso ia aparecer nas chapas e eu levaria uma “bomba” no exame médico.

Aí inventaram outras coisas de “ver por dentro”. Ultrasonografias, tomografias, até endoscopias já fiz mais de uma. Meu interior sendo vasculhado.

Mesmo assim não entendo o que se passa em meu interior.  Dores estranhas aparecem em lugares mais estranhos ainda e dado a falta de motivos, passo a achar que são fruto da minha imaginação.

Semana passada achei que estava surtando. Sonhos psicodélicos e ausência de sono me levaram direto aos anos 70, aqueles das viagens lisérgicas.

Mas eu nunca tomei ácido nenhum, exceto antiácidos estomacais que não dão alucinação, acho eu.

Até descobrir que era efeito colateral do antibiótico receitado para uma infecção.

Não, ainda não estou surtando. É meu interior se rebelando.

Bons tempos aqueles em que eu via meu interior com uma pena de galinha e me contentava com isso.

Na realidade, eu me contento até hoje. Meu médico sim, esse é que é um cético.

 

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