brinquedo de gente grande

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Lembro que quando eu era pequena e minha mãe saía, o que era raro, eu adorava. Porque podia ir pro quarto dela e deitar e rolar no armário.

Lá eu achava luvas de renda, colares de pérolas- a maioria falsos, é claro – camisolas de cetim, vestidos, sapatos de salto.  E vestia tudo, de frente pro espelho do armário, fazendo caras e bocas de senhora. Bom, das caras e bocas que eu achava que as senhoras faziam.

Quando cresci, muito tempo depois, descobri os brechós. Que são mais ou menos como o armário da minha mãe, com algumas diferenças.

Hoje eu já não experimento fazendo caras e bocas de senhora.

Mas me divirto. Fico horas e horas, experimentando tudo pelo prazer de experimentar, sabendo que não vou levar, só pra ver como fica.

Eu também gostava muito de aventuras no clube que a gente freqüentava, a beira da represa. Sem irmã da minha idade, nem amiguinhas, eu ficava sozinha por lá, entregue a própria sorte, nadando na represa, indo de barco em barco na marina, entrando no mato, brincando de Indiana Jones muito antes do Indiana Jones.

Mais ou menos como hoje, quando a gente se mete na serra da Mantiqueira, brincando de exploradores.

E no fogãozinho que ganhei um certo natal, a delícia era brincar de cozinhar mato, plantas e flores. Misturar tudo com água, picar bem, ficar mexendo nas panelas.

Sabe que não me sinto muito diferente hoje quando cozinho aquele monte de verduras, aquele mundaréu de folhas, picando bem e mexendo nas panelas?

Quem diria que naquela época eu já brincava de vegetariana..

Agora o que eu não fazia era dançar.  Doía ficar na ponta dos pés e eu era lenta demais pra imitar os sambistas das escolas. Eu não conhecia tango dançado naquela época.

Hoje eu conheço.

E brinco sempre.

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