justiça

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A justiça dizem que é divina. Ou que a divina – justiça – não falha.

A justiça também dizem ser cega.  O que faz dela uma deficiente visual mas não necessariamente uma entidade democrática.

A justiça dos homens, essa sim, dizem falhar. Antes assim, torna-a mais humana, que nós humanos falhamos bastante.

Mas no envelhecimento não há justiça.

Nunca matei ( baratas não vale), nunca roubei ( cinzeiros de hotel também não vale), nunca tomei, cheirei, fumei droga nenhuma ( hollywood sem filtro também não vale), e agora, ano após ano, sou vítima de uma injustiça que de cega não tem nada. Ela me alcança, me procura e me acha todo ano na época de fazer check-up.

Meu colesterol. Minha pressão arterial. Minha taxa de glicose. Isso porque das minhas rugas e pés de galinha, das minhas bochechas buldoguianas, das minhas dores lombares, eu nem falo mais. Fazem parte. Como minhas cicatrizes de quedas infantis e outras nem tão infantis assim. Eu sou estabanada.

Eu achava que enquanto não tivesse que tomar remédios estava safa. Olhava aquela bandeja do maridão, na cozinha, recheada de pílulas coloridas e me penalizava, embora por dentro me regozijasse. Não porque fique feliz com os remédios do maridão, mas porque são dele e não meus, se é que me entendem.

Agora eu tenho a minha bandeja também. Estatinas e reguladores de pressão por enquanto.

Por enquanto.

Bom, meu próximo bastião da liberdade a ser guardado com unhas e dentes é não usar bengala.  Ando bem e bastante. De salto, de sandálias, de tênis, descalça não, que não gosto.

Em asfalto, em salões, em escadas e rampas.

E não me verão de bengala tão cedo.  No pasarán!

Já comprei dois cajados de montanhismo, hehehe.

2 thoughts on “justiça

  1. Alziro: eu nem queria ter o corpo dos dezoito: era sedentária. Mas uma ossatura de trinta…
    Também acho bengala chic, quando é um acessório fashion, como suspensórios ou corrente de relógio. Uma coisa assim meio vintage. Mas quando passa a ser a terceira perna ( e a mais íntegra) dói. Por enquanto ainda não cheguei lá. Mas, quer saber? Espero chegar. Porque quero ser centenária, no mínimo! 😉

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