Discepolo na esquina

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Estamos andando apressados pela rua, a aula de tango já vai começar.

Uma senhora baixinha para na nossa frente.

Você não é a Maray? E você não é o Fausto?

Meu deus! Ela não só sabe meu nome, que não é nada comum, como também sabe o do Fausto, também meio raro nos dias de hoje! E quem diabos será ela?

Ante minha cara de “com quem será que estou falando”, ela se identifica como uma ex-vizinha, de 20 e poucos anos atrás.

Deviam proibir gente de boa memória abordar outros assim. Aliás, deviam proibir gente de boa memória de se manifestar. Humilhação é ruim e eu não gosto.

E de repente, quando ela diz o nome dela e o do marido – já morto, por sinal – eu lembro…sabe do que? Da tese de mestrado dela ! Eu sou assim, incapaz de lembrar uma cara mas boa com nomes ou coisas estapafúrdias. A tese dela versava sobre a morte, um estudo sobre os coveiros e sua profissão. Esquecer quem há de??

E assim corre a vida.  Eu mudei a cor do cabelo, maridão mudou a cor da barba, se eu não me conhecesse bem, diria que sou hoje outra pessoa, mas a baixinha não me esqueceu. E pergunta, de chofre:

E aí, como vai a militância política?

Ela lembra. E eu faço de tudo para esquecer.

Porque hoje lembro mesmo é do Discépolo:

“Siglo veinte, cambalache, problemático y febril!

El que no llora no mama,

Y el que no afana es um gil…”

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