do ser humano e suas idiosincrasias

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Não consigo – e olhe que eu tento – entender o gosto humano por rituais.

São gestos repetidos às vezes por anos a fio, rotinas feitas sem pensar muito ou sem pensar em nada, com determinados fins.

São superstições. São gestos mecânicos. São métodos e técnicas.

O dentista quando bota o paciente sentado naquela cadeira e acende a luz, levanta a cadeira, manda abrir a boca, é um ritual. É uma rotina. É uma técnica. Talvez até seja também uma superstição, tipo dentista sem cadeira alta não funciona nem enxerga. Pode ser.

Eu tenho rituais. De manhã mais do que qualquer outra hora do dia. Levantar, botar um chinelo ( odeio andar descalça), ir pro banheiro. Saindo de lá,  pegar o jornal. Tomar café. Tudo isso sem pensar. Dá até pra continuar dormindo enquanto se faz isso. É uma técnica também, estão vendo? E uma superstição, por que não? Se eu não fizer, acho que o mundo não gira, a vida não passa, o sol não aparece. Tem dias em que ele não aparece mesmo, mas a culpa não deve ser só minha, acho.

Estive num casamento esta semana. Rituais de baciada. Desde o andar cadenciado de todo mundo rumo ao altar até os sorrisos, as lágrimas, as frases. Uma técnica? Do padre acho que sim. Pelo menos dava a mesma impressão daquilo que eu faço de manhã cedinho: a de que estava fazendo coisas mecanicamente. Dos noivos ainda não. Era o primeiro casamento deles e pra isso chegar a técnica demanda uma certa repetição.

Não digo que rituais sejam bons ou ruins. Só que são atos sem muita consciência, se não não seriam rituais. Se todos somos diferentes uns dos outros, fica difícil imaginar que façamos as mesmas coisas tudo igual. Por isso acho que rituais unificam aquilo que não devia ser unificado. Homogeinizam aquilo que não devia ser homogeneizado.

Casamento devia ser assim: cada um promete o que pode. Eu nunca prometi amor eterno. Nem mesmo eterno enquanto durar, porque acho isso cinismo e má poesia.

Talvez eterno enquanto EU durasse, mas é muito tempo. Acho.

Lembro que o João, o padre que nos casou falou: vocês gostariam , hoje, que fosse um amor eterno, se for como é hoje? SIM! Dissemos os dois. Porque vontade de que a coisa seja boa a gente tem. E ficou assim. Se será eterno não sei nem me comprometo.

Tentei quebrar o ritual. Mas nem sempre se pode. Porque ritual, quer seja superstição, quer seja técnica, quer seja apenas uma forma de várias pessoas juntas saberem o que virá a seguir, quer seja até mesmo uma pausa para não pensar, é bom também.

Consciência ativa o tempo todo cansa.

6 thoughts on “do ser humano e suas idiosincrasias

  1. Eu vivo cheio de rituais, acender velas, incenso… E s[o consigo escrever direito se usar meus aneis favoritos de prata e bla bla bla. Um nunca acabar de superstições e repetições, mesmo que eu saiba que nada disso faz muito sentido.

  2. Ay, lo intento pero no entiendo mucho! Ayer vi la película sobre Lula y me maravillé con el lenguaje, ¡¡cómo me gusta!!… pero no lo entiendo!
    Saludos, maray!!

  3. Alziro: claro que faz sentido! Enquanto você verifica se os anéis estão todos na mão você pode pensar sobre o que vai escrever. O ritual te “dá um tempo” e se a coisa não sair tão boa quanto se pensou, te dá também um álibi: ” Pô, esqueci aquele anel, tá vendo? ” 😉

    Estrella: bueno que te maravillaste con el lenguage porque aquella película no tiene mucho más con que uno se maraville…

  4. Vera

    Adoro os rituais: dos batizados, dos casamentos religiosos, da cerimônia japonesa do chá, das missas. Mas, no dia a dia adoro fazer um caminho diferente, mudar os móveis de lugar (por isso não gosto de móveis fixos). Talvez me desse bem com uma vida cigana….

  5. A liturgia da vida está por todos os lados: nas flores, que se repetem no ritual de polinizar na mesma época e do mesmo modo há séculos; na borboleta, que passa a maior parte do tempo como lagarta só para ter um momento de liberdade com asas; na pizza das noites de domingo…

    Sem toda essa rotina seria o caos. O problema é que é um caos do mesmo jeito. 🙂

    Beijoca

    PS – depois do seu comentário adicionei isso aqui (com um comentário seu e tudo):
    http://cartadaitalia.blogspot.com/2006/05/bodas-de-prata.html

  6. Vera: também gosto de mudar móveis de lugar. Mas como não mudo de casa há 33 anos, já estou repetindo os lugares dos móveis! bjs

    Allan: O Vitor é o cara, né? Hoje me dedico mais ao tango do que a percussão, mas devo a ele ter me introduzido no mundo da música. Devo à mãe dele ter me introduzido ao mundo do samba e suas escolas e ao avô dele ter me introduzido no mundo do folclore e das danças brasileiras. Eita família que gosta de introduzir!! bjs 😉

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