de quadros e museus

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Ando lendo um (mais um) livro de crônicas do Rubem Braga. Abordando as infinitas exposições e museus em que ele foi e resenhou para algum jornal.

Vou pouco em museus. Sei lá porquê, mas não gosto, afora um ou outro meio insólito. Museu de móveis, museu de roupas, por aí.

Mas é claro que gosto de artes plásticas. E quadros em geral. Uma parede ou casa sem quadros parece comida sem sal. Por melhor que seja, falta alguma coisa fundamental.

Embora os quadros que existiram em minha vida deixassem um pouco a desejar.

Em casa havia uma santa ceia. Em casa e na casa da torcida do Corinthians e do Flamengo juntas. Pelo menos nas de antigamente.

Eu não gostava nem um pouco. Minha mãe mandava eu limpar, de vez em quando, e tinha que ir com uma escova de dentes e limpar cabecinha e pratinho, um por um. Eram doze, como vocês sabem…

Havia também um “preto velho”, uma pintura de um escravo. Embora a sociedade sempre tenha sido racista, parece que antigamente, pretos davam bons quadros. E bons escravos. E tome racismo!

Havia uma pintura de Itanhaém, não sei o autor. E ficava por aí. O resto eram pratos na parede, passarinhos e um horrível par de velhinhos ao telefone, em cerâmica.

Mas podia ser pior.

Sempre pode.

Na casa das minhas tias, mais carolas, havia um cristo dando uma esmola pra uma mãe com uma criança. Enorme. E também um coração de Jesus. Enormes. O coração e o quadro.

E uma Nossa Senhora dentro de uma redoma, com aquele manto azul. Por sorte a redoma era de vidro e essa ninguém mandava eu limpar.

Na irmã mais velha de minha mãe havia o clássico quadro (geralmente ovalado) do casal. Ela ficou viúva duas vezes, então havia dois deles. Era uma fotografia, muito da retocada, onde mal se reconheciam os personagens, retocadas as bochechas e os cabelos. Uns vermelhos e outros pretos retintos, embora minha tia já fosse grisalha no segundo casamento.

Não sei se era assim em todas as casas. A gente era de classe média baixa (hoje a miséria é tanta que seríamos considerados média média) e era isso que havia em todas as casas da família.

Vez ou outra uma fotografia de formatura ou brasão de time. Ah, e as fotos dos bebês em seis ou doze poses.

E é isso. Nada de Volpis, Portinaris ou Tarsila.

Museu é museu.

Vida real é outra coisa.

O que é uma pena.

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