o buço

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Sabe que eu nunca soube o nome real dela? Bom, era a Tia Dina. Que minha mãe sempre dizia que nem tia era, uma vez que era apenas irmã de “criação” do meu pai, que teve dez irmãos “de sangue”. Como se tivesse diferença.

Morava em Franco da Rocha. Pra quem não sabe, pra quem não é daqui, pra quem tem pouca idade, enfim, Franco da Rocha teve o maior manicômio de São Paulo. Foi desativado.

Lá era, na minha imaginação de criança e acho que em realidade também, a casa dos horrores. Como todos manicômios da época. E a cidade de Franco da Rocha sofria, por extensão,esse apelido preconceituoso: a cidade dos “loucos”. Quando a gente dizia que ia passear lá, a piada sempre era: “cuidado que não te deixam voltar”. Piada velha e sem graça, já naquela época.

A Tia Dina era especial pra mim e a casa dela mais ainda. Era numa ladeira que saía da estação. Tão ladeira que eu lembro de subir e brincar de bater os joelhos no rosto. Mas quase batiam, mesmo, tal a angulação da ladeira. Era uma casa antiga. Terreno grande, plantado por flores perto da sala e árvores frutíferas no resto.  

Quando a gente ia pra lá, a gente passava a noite. Acho que a viagem era trabalhosa, de trem, e Franco da Rocha, hoje tão perto, era “interior”. Daqueles de passar dias.

E a gente dormia todo mundo- quer dizer – a mulherada, adultas e crianças – numa enorme cama de casal. Que não tinha travesseiros. Tinha um rolo. Eu achava uma enorme graça naquele rolo desconfortável.

Pior que a cama compartilhada por umas 4 ou 5 mulheres era a falta de banheiro dentro. O banheiro era lá fora. A “casinha”. Um buraco no chão de cimento. Eu morria de medo dele. De cair lá dentro e me perder. Uma merda. Literalmente.

Aí, à noite, pra não ter que ir lá fora, havia um penico nos quartos. Um nojo. De ágata, todo desbeiçado.

Tem gente por aí que enaltece e lembra com carinho de coisas antigas, de imagens do interior. Eu tenho é medo. Não era nada bom aquilo.

Mas era boa, era maravilhosa, a convivência da gente – eu, minha mãe, minha avó, minha tia, com a Tia Dina.

Mulherão grande em largura, em altura bem pequena, de bunda grande, peitos fartos e sempre de avental, era a rainha dos bolinhos de chuva, dos doces de banana, de abóbora, de pé de moleque. Que fazia num fogão de ferro esmaltado, branco e verde, a lenha.

Era casada com o Seu Manuel. Ele a gente não chamava de tio. Jardineiro, homem sério, calado e bonzinho. Dava pra gente, quando voltava do trabalho, roletes de cana bem doce que trazia das redondezas. Ele era a metade dela. Em largura. Em comprimento era maiorzinho.

E havia o buço. Ah, o buço!

Eu nunca tinha visto aquilo e minha mãe já começava a me dar sermão horas antes da gente chegar lá. Menina, não dê risada, não comente, finja que não vê!” Tudo pra evitar meus olhares impressionados para o buço da Tia Dina.

Naquele rosto sempre sorridente, naquela fala mansa com sotaque do interior, tia Dina era, pra mim, quase como a mulher barbada do circo.

Uma doçura.

Foi lá que eu fui crismada. Por um bispo.

É claro que não lembro. Era muito pequena.

Diz minha mãe que eu berrava sem parar e ele ameaçou, ainda segundo minha mãe, me dar um tapa, “de brincadeira”.

Até hoje não sei se ela dizia isso pra ter um aval clerical pra sua opinião à respeito do meu “mau gênio” ou se de fato o bispo aquele era de maus bofes.

Minha mãe já morreu, o bispo também, meu gênio continua o mesmo, nunca ninguém me botou a mão e de igreja quero distância.

Mas as lembranças de Franco da Rocha são muito queridas.

Menos o buço.

Meda!

8 thoughts on “o buço

  1. Pra compensar, na Itália tem as mulheres carecas. Com o tempo, perdem-se os cabelos e sobram apenas alguns fios, por causa do excesso de funghi sonsumido durante a vida. Um motivo a mais para eu não comer funghi.

  2. Bípede: mulher de pé grande? Agora magoei…calço 40 😀

    Marília: é bom voltar às origens, de vez em quando. Pra saber como “aquilo” deu “nisso”, né?

    Allan: ué? mulheres carecas e medo de ficar? Quequiéisso? Vai sair do armário a essa altura do campeonato?!

  3. eu gosto de como se pode brincar com esse passado bom, e do jeito como você escreve. medo de cair na merda, porém, é passado por gerações há muito tempo, porque quando era criança, eu tinha pavor de perder o equilíbrio, cair na privada, ninguém me ver e dar a descarga.
    nesse sentido, preferia o penico!

  4. Alziro: mulher de bigode…eu achava que era brincadeira aquele negócio de mulher portuguesa, até conhecer Portugal…

    Babi: na privada normal nunca tive medo. Ou melhor, minto, havia um banheiro público no Anhangabaú que era aterrorizador. Como todos os banheiros públicos, aliás.

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