Livre pensar, Millor, está cada vez mais difícil

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Minha mâe, quando fazia comida, o que aconteceu por décadas, costumava ela mesma se elogiar. A gente achava engraçado porque ela nem dava tempo da gente opinar. Trazia a comida para a mesa já elogiando.

Eu gosto de escrever. Mas tenho pudor de elogiar o que eu mesma escrevo, embora  ache mesmo certos textos bons.

Então, boto no ar e fico feliz da vida se alguém gosta, além de mim. Sim, porque se eu não gostasse nem publicava.

Também no teatro ou mesmo na televisão, gosto mais da sutileza. Vocês já prestaram atenção na Fernanda Montenegro? Ela atua com os olhos, com a ruguinha do canto da boca, com as mãos, com a sobrancelha. E não, ela nunca faz careta. Porque careta é o arremedo da atuação.

Assim como escrever clichês também é o arremedo da literatura.

Aprendi com a literatura mesmo a gostar das entrelinhas, das sutilezas, do que fica subentendido. Descobrir um personagem aos poucos é fascinante. Autor que dá tempo pra isso acontecer dura mais. Dura enquanto se lê, dura enquanto se pensa sobre o livro, dura na memória. Porque instiga. Que o diga Capitu. Ou Machado. Capitu é tão real que poderia ela mesma dizer.

Os tempos hoje são sombrios. Ninguém acha, parece que todo mundo tem certezas.

Ninguém pede, parece que a maioria gosta de ordenar.

O Brasil, talvez mais do que outros povos, vive hoje momentos esquizóides. A propaganda oficial sempre alardeou o povo gentil, receptivo. A realidade é hoje, mais do que nunca, bem outra.

Sérgio Buarque foi preciso ao definir o homem gentil. Mas tem que ser lido nas entrelinhas e na sutileza. O homem gentil do Sérgio cumprimentava a empregada desde que ela não saísse do seu lugar, definido por ele, lógico. Muito gentil. Como aquelas pessoas que alardeiam que suas empregadas são “como se fossem da sua família”.

Hoje, há que se ler nas entrelinhas, embora alguém possa achar que esteja tudo claro por demais. Que os lados estejam bem demarcados. Que só se possa ser uma coisa ou outra.

Tem de haver espaço para o pensar.

Minha mãe trazia a comida se auto-elogiando. A gente não tinha que pensar. Tinha que concordar e comer.

Prefiro o pensar.

Correndo o risco de ficar sem comer.

One thought on “Livre pensar, Millor, está cada vez mais difícil

  1. Regina Stellin

    Muito bonito, para pensar nas entrelinhas e também nas linhas
    É um tempo esquisito mesmo, tantas certezas, ficam faltando as dúvidas

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