descoberta

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Sei dele pedaços de história. Pela única foto que tenho, tinha muito cabelo. Preto e basto, como se dizia na época. E por falar em época, estou falando do fim do século retrasado e começo do século passado.

Deve ter vindo com grande parte da família, uma vez que no mesmo bairro para onde vieram, a Lapa, morava um monte de parente. Primos alguns. Outros eram amigos.

Montou uma padaria. No centro da Lapa. Isso eu sabia. Conta-se que era um homem dedicado à esposa, que foi bastante doente, tanto que só teve dez filhos, dos quais só cinco sobreviveram. Parece uma estatística macabra, mas era muito comum isso na época, nas camadas mais pobres. Em compensação, violento e autoritário com os filhos. Lugar de mulher era na cozinha, depois de terminar o primário. Filho que fizesse algo que ele não gostasse era castigado. Havia um causo que me contavam que um dos filhos, com certo retardo mental, demorava pra fazer as coisas. Fazia xixi na cama até bem grande. Certo dia o pai castigou-o deixando-o amarrado a uma árvore no quintal o dia inteiro, sob o pranto da mulher que pelo visto não se atrevia a desobedecê-lo.

Estou falando do Luiz, meu avô materno. Morreu num acidente automobilístico quando minha mãe tinha 13 anos, deixando minha avó com cinco filhos pra criar. De alguma forma ela criou. Os cinco também criaram suas famílias, como puderam. Ele morreu num acidente automobilístico. Sim, ele tinha carro. Parece que a padaria tinha dado certo. Até aí chega o que eu sabia.

Daí, semana passada, vi na internet a foto de um desastre de automóvel de 1929, aqui na Lapa. Achei que podia ser o dele, sei lá por qual razão. Afinal, não deviam existir tantos carros assim na década de 30 e com acidente sério menos ainda. Mas não era. Soube porém, por quem postou a foto, que a Biblioteca Nacional possui uma hemeroteca já digitalizada. Era só procurar o nome dele e, quem sabe, eu descobriria alguma coisa!

Não deu outra. Em 1932, numa volta dum pic-nic de páscoa, meu avô que tinha bebido o dia inteiro, deixou o carro dele pra um amigo guiar. Ele veio no estribo. O carro estava lotado de familiares. Na Lapa, uma carroça de entrega de leite raspou o veículo com tudo do lado em que ele se dependurava no estribo. Muitas fraturas expostas e algumas horas mais tarde, no mesmo dia, a morte no hospital.E é isso. Pela mesma hemeroteca descobri o endereço da padaria, que eu não sabia. E até o preço que ele pagou por ela!

Fui hoje lá, a pé, de máscara e atravessando a rua cada vez que via alguém. Parecia que estava fugindo. Achei o lugar. No principal ponto comercial da Lapa, defronte ao shopping. Bar da Loira, chama-se hoje.

Quem diria que o italiano de cabelo preto e basto seria trocado pela loira, seja ela quem for…

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