bacalhau

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Hoje pela primeira vez estou cozinhando um bacalhau que não é seco nem salgado. Um bacalhau como devem ser todos os bacalhaus em seu lugar de origem. Um bacalhau sem maquiagem, sem preparos, ao vivo não diria, porque ele está bem morto e fatiado mas assim, um bacalhau puro em sua integridade de bacalhau.

Também, ando me sentindo meio assim, um bacalhau. 

Maquiagem nem pensar. Nem o batonzinho básico que eu gostava. Pra que? A boca não tem ajudado, nem os dentes. Uma das jaquetas (será assim que fala?) caiu e está lá, o dente falta mas tantas outras coisas mais importantes também faltam que eu nem ligo mais. Afinal, a máscara esconde também isso. 

E assim la nave va. 

São sessenta dias em casa. Adoro minha casa.  Pelo menos adorava. Na realidade, ando um pouquinho entediada com ela. 

Não se modifica. O sol tem nascido todos os dias no mesmo lugar e todos os dias se põe do lado oposto. Se chove ou faz frio nem ligo. Aqui dentro a temperatura é quase constante. Os domingos se diferenciam um pouco porque insistimos em comer na sala, mesa mais arrumada. Mas preciso sempre verificar no jornal se é domingo mesmo. 

Nosso treino esportivo limita-se a subir e descer escadas, 704 degraus por dia. Estamos muito bons nisso. Nunca mais reclamarei dos apartamentos franceses no quinto andar sem elevador. Fichinha. Quero ver no décimo quarto como aqui! 

De vez em quando bate um desespero. Quando lembro do neto, dos filhos e da nossa idade. Sei lá se resistiremos. Grupo de risco e as tais de comorbidades, que antes disso tudo eu nem sabia o que era. 

Ficar em casa. 

A gente fica. 

A gente tem uma casa e tem dinheiro pra comer.Lembrar de quem não tem nada disso desespera mais ainda. 

E pensar que antes disso tudo eu só tinha medo de câncer e de avião cair…

Mas vai passar, é o que dizem. 

E eu, será que vou passar? 

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