a penúltima a acreditar em fadas

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Uma vez que a última morreu em Paris em um trágico acidente, segundo o Alziro Patafisico,  vou contar a história da penúltima.

Se tem gente que acredita em pedras, em conchas, em horóscopos, em florais, em políticos,  por que ela não poderia acreditar em fadas?

Foi dessa forma que Marlise Conceição cresceu acreditando nelas. Em tudo que dizia respeito a fadas: gnomos, duendes, varinhas mágicas, asas, por aí.

Quando seus dentes caiam, de criança, punha debaixo do travesseiro. Sempre encontrava alguma grana lá, no dia seguinte. Chegou a juntar o suficiente pra comprar uma sandalinha da moda lá no shopping do bairro. Mais que isso não foi possível porque as sandalinhas da moda custam os olhos da cara. Bom, nesse caso, os dentes da boca. E ela tinha  poucos. Os que todo mundo tem, menos os sisos que nunca vieram.

Já na adolescência, chamou e clamou pra todas as fadas e duendes pra encontrar o príncipe encantado. Encontrou alguns que se diziam príncipes e reis ou apenas os caras, mas  foi difícil escolher. Acabou escolhendo o mais rico. Que ficou pobre no primeiro plano Collor. Ele não era tão rico assim. Também não era tão príncipe assim. Embarrigou e encarecou nos primeiros anos de casamento. Como também empobrecera, ela ficou desconfiada da fada madrinha. Pediu outro. Nada. Ficou achando que era um caso de oferta e procura. Muita procura e pouca oferta.

Foi ciscando aqui e ali, tomando conhecimento da fada das dietas, da fada das finanças, da fada da casa própria, da fada da sorte no amor. Tentou todas.

E aí, já bem velhinha e vivida, se é que se podia chamar de vida aquilo que ela vivia, voltou a se encontrar com a fada dos dentes.

Vendeu seu carrinho popular  bem jambrado e comprou seus implantes dentários. Deu pra comprar uns 8. O suficiente pra mastigar o MacDonalds de cada dia.

E agora sim, Marlise Conceição acredita em fadas mais do que nunca. Se vendera seus dentes de criança por módica quantia, agora compra novos dentes pelos olhos da cara. Depois de uns cinqüenta anos pareceu justo.

A tal da inflação, nunca ouviu falar?

Fadas. Bah!

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