corona e máscaras

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Tenho pensado muito em máscaras nestes dias de corona. Não só nas máscaras físicas, aquelas que eu tive que comprar a preços absurdos. Mas nas máscaras outras, essas que a gente põe sem nem perceber, que a gente usa em variadas situações e lugares.

Explicando.
Eu costumo olhar pelas janelas. Desde que me mudei para apartamento, eu que sempre só havia morado em casas térreas, adoro olhar pelas janelas deste meu décimo quarto andar. Tudo fica pequeno, deixa de me assustar, parece que eu consigo olhar mais longe e melhor.
Bom, sempre olho pelas janelas.

Ultimamente é o máximo de diversão que me permito : olhar os outros pela janela. O que não deixa de ser interessante em relação a algumas pessoas mas esse é outro assunto.
Mesmo do décimo quarto andar tenho percebido que as pessoas andam se vestindo mais relaxadas, no mau sentido. Neste bairro era raro ver alguém relaxado, mesmo pra ir à farmácia era comum ver mulheres arrumadas, com baton, cabelo e unhas feitas, roupa esportiva mas de grife. Bairro besta, eu sei. Fora os que iam à farmácia de carro, morando a poucas quadras. Falo muito em farmácia porque moro ao lado de uma.

Agora a coisa mudou. A minha teoria é que tudo isso deixou de importar muito. O que está em jogo é muito, muito maior do que meu vizinho me ver de havaiana chumbrega e desgrenhada. A questão crucial é: tem ou não álcool gel nessa porra de farmácia?

Com comida a mesma coisa. Fico pensando nas hordas de milenials que já cresceram a base de Nuggets, hamburgueres, miojos e que tais. Sem saberem cozinhar.
Daí o que resta, neste bairro de classe média é fazer pedidos. E haja motoboy de entrega. Da manhã à noite, é só o que se ouve. Deve ter gente que pede desde o café da manhã até o petisco antes de dormir. Tem sido a última coisa que eu ouço antes de dormir e a primeira que ouço ao acordar. Bons tempos em que ouvia as maritacas locais.

Daí, fico pensando como ficam as circunstâncias.
Sim, porque se o homem é o que é mais as circunstâncias, o que dizer de um hambúrguer comido sozinho em casa, de pijama esmulambento, meio frio, trazido pelo motoboy? Será que sobrevive em paladar ? Será que mudando o entorno e as máscaras usadas (no sentido de caras e bocas e repertório ) o sabor será o mesmo?

Um romance engatado ao vivo resistirá online? Não online mascarado, aquele em que perde-se horas para dar à aparência um ar de “relaxamento casual”mas o online de coronavirus, aquele em que vc sempre pensa se deve ou não tomar banho, pentear o cabelo, fazer a cama, etc, já que…
E é este “já que”que mata. Além do vírus.

Talvez eu esteja sendo afetada pelo isolamento, mas ando pensando muito que, agora que a gente tem que por máscaras pelo vírus, acabe deixando cair as máscaras sociais.

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