coronariando

Standard

Nossa capacidade de fantasiar ou de assumir nossas fantasias parece diminuir com a idade.

Bom, pra mim parece. As fantasias permanecem mas só em determinadas horas, nas quais preciso fugir um pouco da realidade.

Horas de baixa autoestima, horas de preocupação, mas também horas de descanso, de devaneios.

Em criança, ou porque precisasse fugir mais da realidade, ou porque minha autoestima não fosse exatamente cultivada pela família ou só porque eu tenha sempre gostado de devanear, eu fantasiava mais.

Eu fantasiava, e era bem constante isso, que a cidade, por qualquer motivo, ficava absolutamente vazia. Quando eu digo “a cidade” estou falando do centro da cidade, que é como se dizia quando a gente tomava o ônibus pra ir ao centro.

Como eu dizia, meu sonho era a cidade vazia. Eu poderia entrar nas lojas que quisesse (geralmente eu queria o próprio Mappin, primeira loja de departamentos que conheci, que tinha de tudo), experimentar tudo que quisesse, poderia entrar em todas as lanchonetes (meu sonho de consumo não incluía restaurantes) e comer tudo que quisesse, poderia entrar nas docerias e, é claro, ir de bolo em bolo.

Dificilmente queria entrar em loja de brinquedos. Em joalherias queria. Coisa que, de adulta, deixei de querer, ainda bem, suponho.

Eu gostava de loja de tranqueiras. Meu pai era leiloeiro, então tranqueiras pra mim incluía objetos bizarros, enfeites, livros estranhos e raros.

Continuo gostando. Muito.

Mas a cidade vazia era o grande sonho. Não só por conta do que me permitiria fazer, sem nenhum tipo de restrição, mas pelo silêncio – que sempre prezei- pela calma, pela possibilidade de fazer as coisas devagar.

Nunca previ, nem fantasiei nenhum tipo de vírus. Literatura de ficção nunca foi minha predileta, com exceção do Júlio Verne, que não ponho nessa categoria.

E cidade vazia, como estou vendo ficarem as mais lindas, por conta de doença, nunca imaginei.

Uma coisa é a fantasia, onde a gente realiza sonhos, sabendo que são só um refrigério pra realidade cansativa. Outra coisa é essa paz dos cemitérios.

E olhe que eu sempre gostei de cemitérios, exatamente pela paz.

Que dias!!

2 thoughts on “coronariando

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *