Elas

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Coisas são coisas e gente é gente. Gente tem nome, bicho também. De algum jeito é preciso caracterizar gentes e bichos, pois que são diferentes entre si. Embora eu não distinga um pinguim de outro, mas deve ser pela falta de contato.

O resto, as coisas, são, no máximo, nomeadas pelo ano ou pela marca. Tive uma Brasília azul celeste, logo que foi lançada, que era um horror de carro. Não obstante, nem pudemos escolher a cor, tal a fila de espera.

Mas é isso, coisas são distinguidas geralmente pelo modelo, pela marca, pelo ano.

Gente também, mas tem nome.

Nunca dei nome a nenhum carro, a nenhum objeto, a nenhuma coisa.

Mas tem certas coisas que, não sei explicar, são tão importantes, tão necessárias, que é quase irresistível nomeá-las de forma mais carinhosa, mais íntima.

Recuso-me a dar nome, porém.

Eu as chamo de “elas”. E ao chamá-las assim, as pessoas sabem a quem me refiro.

São de vida efêmera. Alguns meses, talvez nem isso.

Nem sempre eu as encontro.

Nem todo mundo as ama como eu amo.

Mas quando elas se vão, a vida fica mais triste. O resto do ano demora a passar. As cores ficam mais sombrias.

Elas, de presença tão marcante pra mim, são delicadas. Quase etéreas. Quando estão presentes, um leve olor paira no ar. Porque elas não têm cheiro, têm olor, como as heroínas de Alencar.

São minhas lichias.

“Elas”.

 

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