fantasmas da noite

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A primeira vez em que vi uma foi em Montevidéu.

Quando entendi para o que servia, adorei. Eu mesma sabia o que era fazer uma reforma e acumular detritos na calçada até chegar um caminhão pra levar tudo embora sabe-se lá para onde.

Falo das caçambas. Havia a promessa, quando apareceram por aqui, de serviço limpo, regulamentado, o lixo no lixo, enfim!

Algumas acho que são. Eu mesma, quando já precisei usar, procurava as que tinham identificação porque acreditava que com isso haveria um mínimo de controle. Sou otimista, sempre.

Mas hoje, além de otimista, sou idosa. Terceira idade. Ou última, depende do grau da depressão.

Então o sono fica leve e não o peso. Esse mundo é injusto.

Então, agora que moro em apartamento, rodeada de prédios por todos os lados, sou rodeada também por caçambas por todos os lados. Num quarteirão só de prédios altos, não passa uma semana sem haver uma ou mais caçambas estacionadas.

Tá certo. As pessoas reformam, consertam.

Então à noite, mas bem noite mesmo, tipo duas ou três da manhã, o lugar aqui fica parecendo as noites do fantasma de Canterville. Um profundo arrastar de correntes, imprecações, rangidos e estrondos.

E eu ali, de olho esbugalhado, esperando a última caçamba ser trocada e/ou retirada ou esperando o amanhecer, o que vier primeiro, pra poder dormir.

Eu bem que preferia o fantasma.

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