material escolar

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Janeiro era mês de férias. Em janeiro eu ficava em casa, brincando sozinha do que conseguisse inventar. Esperando ansiosamente o começo das aulas.

Primeiro, por encontrar finalmente amigos. E depois, pelo novo material escolar.

Nada que se compare aos de hoje. Cadernos, lápis de qualquer tipo e tamanho, caneta idem, a cartilha. Mala de couro e pra quem pudesse, lancheira igual.

A minha era vagabunda. O couro. Por mais que eu cuidasse, engraxasse e não arrastasse no chão ou batesse em colegas com ela (coisas que os meninos faziam com frequência), o couro ressecava e ia se abrindo. Durou os quatro anos do primário, mas num estado lamentável.

Os lápis eu ganhava de um tio. Ele sempre andava com os bolsos cheios de lápis, o que lhe angariava um séquito de crianças correndo atrás dele pela Cerro Corá, onde ele morava. Grande tio Nicola!

As canetas eu pegava de uma gaveta do meu pai, em casa. Havia um montão delas. Sem meu pai perceber, eu usava as canetas parker 51, as Sheafer, as compactors e ia quebrando todas, de tanto apertar a pena junto ao papel. As penas se abriam. Ele ou não percebia ou não ligava. Nunca brigou comigo. Em qualquer circunstância.

Os cadernos eram brochuras, porque as professoras perceberam que a criançada ia tirando as páginas dos cadernos em espiral e logo os cadernos de 100 páginas ficavam fininhos. Elas adotaram as brochuras. Mas também havia técnicas para arrancar páginas: era só pegar as do meio. Maridão conta que chegou ao cúmulo de costurar cadernos, depois de tanto arrancar páginas.

Eu gostava de escrever só de um lado da página. Porque apertava tanto o lápis e a caneta para escrever que o outro lado ficava em alto relevo. Eu ia até o fim e depois, como não podia ter outro caderno, voltava, escrevendo do outro lado, aborrecida.

E como não tinha grana para comprar plástico para encapar os cadernos, fazia isso com papel de padaria ou, lembro um certo ano, com sobras de uma cortina de plástico do banheiro. Era a única da classe com cadernos encapados com peixinhos!!

Lápis de cor eram poucos. Aqueles de apenas uma dúzia. Eu ficava louca da vida porque nessa dúzia ainda tinham a pachorra de botar um branco, que não servia para nada..Nunca tive o de 36 cores. Acho que um dia desses vou comprar, só pra ficar olhando. Se é que ainda existem!

E esse era todo o material. A cartilha era o livro sagrado, que não podia estragar nunca. Eu morava em uma casa cheia de livros, a cartilha não me motivava pra nada. O compasso era um lápis no qual a gente amarrava um barbante. Funcionava perfeitamente. As borrachas eram duras e mais sujavam o papel do que apagavam. Pelo menos as minhas.

E nada disso teve a menor importância . Fui ótima aluna no primário (péssima no ginásio e bastante razoável na faculdade) e me virei bem com o material escolar.

Só sobrou mesmo hoje essa vontade de ter um estojo de 36 cores e um globo terrestre.

E uma vaga saudade daquela lancheira de couro com um sanduíche de goiabada.

Era ruim, mas como era bom!!

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