aniversário

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Ele me levava ao dentista com seis anos. Segurava minha mão quando o Renato (esqueci a cara mas jamais me esquecerei do nome. O primeiro trauma a gente nunca esquece) avançava com aquela broca medieval da época. Depois me levava numa padaria e me dava um copo de leite frio. Até hoje leite frio me acalma.

Ele me indicou os primeiros livros para ler, assim que aprendi a ler. Muita aventura, muito Mark Twain, muito Julio Verne, o diário de Anne Frank. Logo eu lia mais que ele e aí passei a escolher pelo nome original ou pelas capas elaboradas…

Ele me dava presentes do dinheiro de seu minguado salário de estagiário.

Quis me ensinar a jogar voley. Eu tentei aprender. Ambos ficamos decepcionados.

Ele me levava ao cinema pra ver Totó e Vittório Gassman. E mais um monte de comédias italianas.

Ele teve paciência pra me ensinar o pouco que sabia de piano, as notas iniciais, os pedais. Daí eu fui em frente, só tocando com a mão direita, até hoje. Acho que não fui muito em frente, afinal.

Ele, em momentos em que a família perdeu a paciência comigo, ficava ao meu lado e me dizia do orgulho que teria se um dia tivesse uma filha como eu.

Ele, que nunca fumou, nunca bebeu, passou a vida fazendo esporte, morreu de um câncer estúpido, como são todos.

Era meu irmão do meio. O xodó de todos. Inclusive meu.

Faria hoje 82 anos. Desde os 68 porém, nunca mais aniversariou.

Um beijão, Miltola!

One thought on “aniversário

  1. Aline Andre

    Fez 82, no seu coração, no meu… no de todos que nunca esquecemos que 16 de julho é o aniversário dele!! Adorei suas lembranças, li umas dez vezes, quase poderiam ser minhas (inclusive a parte do vôlei). Lembrei do asterix e obelix, mortadelo e salaminho, recruta zero, todos os gibis…os livros, os discos, o futebol,..obrigada!!

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