a terceira onda

Standard

No início foram os filhos.

Era muito raro, quando eu era nova e em idade fértil, optar por não ter filhos, tendo condições e parceiro, estável ou não. As mulheres tinham filhos.

Não como na época de nossos pais e mesmo dos avós. O número de filhos foi diminuindo em escala quase geométrica, pelo menos para quem podia escolher.

Meus avós tiveram 18 e 10 filhos cada um. Paternos foram dezoito filhos, dez sobreviventes e maternos dez filhos, cinco sobreviventes. E olhe que minha avó materna, por conta de doença, parou de ter filhos aos 36 anos.

Meus pais tiveram 4 e eu dois.

Sou da geração pílula, o que veio tornar a opção filhos de fato uma opção. Pelo menos para a classe média.

Meus filhos já optaram, um deles, por não deixar descendência e a outra terá filhos agora, quase no fim do segundo tempo. Provavelmente meu único neto.

Digo isso para meus botões – com os quais costumo ter diálogos ou monólogos usuais- por conta de uma ideia que me surgiu. A de que os filhos foram a primeira onda.

A segunda onda, que tem relação com esta primeira e muita relação com o estilo de vida de hoje, diz respeito à pets. Aqueles bichos, cachorros, gatos, peixes, e outros que tais que as pessoas mantêm e cuidam e prezam e tratam como filhos.

Eu também já tive pets e adoro. Minhas cachorras sempre foram cachorras, vivendo no quintal e comendo ração. Nunca dormiram comigo nem comeram minha comida, exceto quando estavam tão velhinhas que a ração passou a fazer mal. Aí foram tratadas a canja de galinha, que eu sempre fiz só para elas. Mas para mim nunca passaram de cachorras. Amadas mas cachorras.

Esta segunda onda acho que vem suprir a falta de filhos e, ao mesmo tempo, “dar menos trabalho” que filhos. Mas também dá um trabalhão. Que pode ser terceirizado sem tanto drama de consciência, tipo hotel pra cachorro, banho e tosa, passeadores de cachorro quando o dono não pode, essas coisas.

E, finalmente, descobri nesta minha última viagem, a terceira onda.

Levain, ou fermento natural de pão.

Não, não é a minha que eu nunca primei pela paciência. Mas é a do maridão. Para o prazer da minha gula.

Fermento natural tem que ser alimentado a cada dois dias. Tem que ter cuidados quanto a temperatura, quanto a luz e sombra, essas coisas.

Em viagem, um problemão. Ou você designa alguém pra ir na tua casa alimentar o bicho, digo, o fermento, ou a coisa toda degringola e você tem de começar tudo de novo.

Já se pensou até em creche de fermento para esses casos mas ainda não surgiu o empreendedor.

Esta terceira onda ainda dá ao ser humano a impressão de cuidados com outro, mesmo que o outro sejam as bactérias da levedura. Dá menos trabalho, porém, que os filhos e os pets.

Talvez seja isso. Numa sociedade futura, uma quarta, quinta ou sexta onda talvez seja alguma coisa eletrônica que precise ser alimentada.

OOpps… acho que já existiu!

Alguém lembra dos tamagochis??

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *