uma saga gelada

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Eu já nasci com uma delas em casa. Uma pequena, da época da segunda guerra. Dava e sobrava pra todo mundo.

Durou muito tempo. Elas duravam sempre muito tempo. Começou na casa dos meus pais e terminou na casa do meu irmão do meio, depois que ele se casou e não tinha muita grana pra ter uma. Quando ele teve grana pra comprar outra, passou ela pra frente. Ainda funcionava muito bem.

E assim a vida foi seguindo. Quando eu casei, uma vez que elas eram caras pra nós e para os familiares, houve uma vaquinha e a gente ganhou uma. Uma lindeza na época. Vermelha, na última moda.

Durou bastante também. Por insistência familiar – filhos, principalmente, foi trocada porque “ora, mãe, vermelha não se usa mais faz tempo…”. Funcionava ainda e foi fazer seu serviço na  casa de amigos.

Aí a coisa foi degringolando um pouco. Elas até funcionavam, mas enferrujavam, descascavam às vezes, quebravam principalmente os puxadores. As novidades se acumulavam, não no sentido de melhorar significativamente a coisa, mas no sentido de fazer as pessoas gastarem mais trocando de modelo. Como carro. Já não bastava mais gelar e conservar os alimentos, porque, como vocês já adivinharam, estou falando de geladeiras, mas de ter água na porta, de ter freezer enorme, de ter puxadores diferentes, de abrir a porta ora de um lado, ora de outro.

Eu não ligava muito pra moda, mas a minha quebrou o puxador e como já era velha, não havia mais no mercado peça de reposição. Aí maridão esculpiu um puxador. Ficou lindona, mas quebrou a refrigeração. Só o freezer se mantinha. A gente foi aguentando até onde deu. Seis meses atrás deu o que tinha que dar. Compramos outra. Bonita, marca conhecida, cheia de trique-triques e nhem-nhem-nhens.

Há seis meses.

Quebrou. Irremediávelmente. Voltei de viagem longa e ao abrir me deparei com um cavalo morto e podre. Bom, quase. O cheiro e os líquidos escorrendo eram iguais. Todas as carnes e peixes deixados no super freezer podres. E bote podre nisso.

Agora estamos aqui. Sem geladeira há mais de uma semana, recuperando hábitos bem europeus, de comprar só a comida a ser cozinhada no dia, tomando todos os líquidos a temperatura ambiente.

Mas, diz o fabricante, ganharemos uma nova e maior ( coisa absolutamente desnecessária) em 15 dias.

Tá bom.

Saudade da Philco da segunda guerra da minha casa de infância…

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