mudanças

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Existem coisas, se é que posso chamar assim, que a gente se torna. E coisas que a gente nasce sendo. E hoje, felizmente, a gente pode mudar quase todas elas.

Eu nasci mulher. Uma alegria para os pais que já tinham dois homens e haviam perdido uma menina, sete anos atrás. Depois que nasci não sei se fui alegria todos os momentos, acho que não, mas na época me contaram que ficaram radiantes. Sempre relacionavam com essa irmã morta e sempre me faziam sentir uma espécie de peça de reposição, mas enfim…

Depois me tornei tia pela primeira vez aos 12 anos. Um choque pra mim. Na época as crianças não chamavam de tias e tios os professores dos primeiros anos. Tias e tios eram seres mais velhos. Ou solteironas. Ficar para tia, era a maldição. Fui bastante zoada na escola. Não se chamava de bulliyng. Aliás, nem de zoação. Digamos que minhas coleguinhas se divertiram bastante fazendo piadinhas com essa minha condição. De qualquer forma, porém, proibi meus sobrinhos de me chamarem de tia.

Daí, aos 21, me tornei uma mulher casada. Bem cedo, para a época. E tive que mudar o sobrenome. Era a lei. Hoje poderia mudar de novo, mas a trabalheira que isso deu não quero novamente. E, afinal, o nome de solteira era o nome de um homem também, meu pai. É duro ser feminista – embora não ache isso um exemplo de feminismo considerável- em mundo machista burocrático.

Daí fui me tornando outras coisas, por escolha algumas, outras por necessidade. Eu não pude escolher todos meus empregos. Como sempre escolhi pagar minhas contas, épocas houve em que ou bem eu pagava contas ou bem gostava do emprego. Parecia que as duas coisas eram excludentes.

E fui envelhecendo. Não foi, nem é uma escolha. Mas é a lei da vida. Ou isso ou a morte precoce.

Tá bom, na minha idade hoje nem seria uma morte precoce, dirão alguns…

Daí que a grande escolha que o amadurecimento me deu, e que tem sido a única das últimas décadas, é ser feliz. Eu abomino tudo que me leve pra longe desse caminho.

Enquanto isso, e enquanto espero ser avó- o que acontecerá em breve e essa condição nem penso em mudar e sim, netinho poderá me chamar de vó-  fico arquitetando como mudar todas as outras condições desse país. Ando meio sem rumo. Desanimada que só. Sei que não estou sozinha mas me sinto assim como formigueiro quando a gente pisa em cima, cada um para um canto diferente. Muita gente mas rumo nenhum.

Isso que falei no começo, de a gente poder mudar nossas condições continuo acreditando.

Mas que é difícil é.

E, como diz a música, não dá pra ser feliz sozinho.

One thought on “mudanças

  1. Rosely Salvitti

    Oi Maray, compartilho algumas dessas coisas com vc, mas ser avó é bom demais. É diferente de ser mãe. Nesse caso o tempo está a nosso favor. É o tempo da curtição, sem se preocupar em ter que ir trabalhar, deixar na creche ou na escola…. É o tempo de inventar brincadeiras ou brincar “das antigas”, contar histórias, fazer teatrinho, dançar, cantar, enfim o que fizemos com os nossos filhos e muito mais. Ficamos muito felizes com essa notícia. Manda um grande abraço para a Nina.

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