ameaças

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Se você continuar assim, te mando para o colégio interno!

Tremenda ameaça. Repetia-se com uma certa constância. Eu ainda não havia lido o Ateneu, do Raul Pompéia, que na época era dado nas primeiras séries do fundamental e não no vestibular, mas já havia lido muito Dickens. Colégio interno era – quase- minha especialidade.

Refugiei-me no banheiro dos fundos. Não por qualquer necessidade fisiológica, embora, sob certo aspecto, minha necessidade de privacidade sempre tivesse sido assim, meio fisiológica. Mas lá dava pra pensar.

Colégio interno significava não sofrer mais com o alcoolismo do pai, não ver, cotidianamente, as reclamações da mãe, embora hoje eu saiba que ela estava coberta de razão, mas o coração tem razões que a própria razão desconhece e eu, na época, ficava de saco cheio delas.

Colégio interno significava não ter que acordar cedíssimo pra tomar ônibus lotado e chegar na escola às sete da matina. Afinal, no colégio interno, eu moraria na escola. Isso era o que eu achava.

Colégio interno também significava estar o dia inteiro com amigas que eu tinha certeza que faria, outras na mesma situação que eu (ingênua, na época, eu não sabia que a necessidade não traz, necessariamente, solidariedade) e, portanto, poder brincar. Em casa eu nunca tive autorização pra ir na casa das amigas. Resultado, muitas das aulas que eu matava eram só pra fazer social, ou seja, estar mais tempo com amigas.

Enfim….voltei do meu retiro no banheiro e disse à mãe: pode mandar. Eu vou pro colégio interno!

Ela não cumpriu. Não havia dinheiro nem vontade real, suponho, de cumprir.

Mas também nunca mais repetiu a ameaça.

Tem coisas que são assim, aprendi: perdem o sentido quando a gente analisa e olha de perto.

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