ode aos pés

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Não dá pra lembrar a primeira vez em que me dei conta deles. Sim, porque são dois.

Mas lembro de quando costumava botá-los na boca, sempre a pedidos.

Na realidade, punha apenas a ponta, mas punha. E quem pedia geralmente queria rir às minhas custas ou só me sacanear mesmo. Coisas de irmão.

Em todo caso, eu obedecia. Punha-os em minha boca com toda facilidade.

Depois, na adolescência, eles sofreram. Como sofrem na adolescência!

Havia a falta de grana crônica na família. E havia a reciclagem. Naquela época em que reciclagem era só mesmo o que famílias pobres faziam com roupas e sapatos, passando dos maiores para os menores, dos irmãos para os irmãos, dos primos para os primos.

Em minha casa, única filha mulher, passaram de cunhada pra mim. Cunhada delicada, de bom gosto, mas com pés muito menores que os meus. Sim, porque é deles que estou falando: meus pés.

Eles sofriam, mas o que eu não era capaz de fazer por um bonito sapato…

Meus calos datam daí.

Depois a fase dos saltos. Durou só até eu cair de um ônibus, com risco de ficar sob as rodas. Os malditos saltos enroscavam em tudo: escadas rolantes, bueiros, chão de ônibus. Fora o barulho do metal dos saltos.

Depois disso diminuí saltos. E os alarguei.

E agora, de uma década pra cá, a fase dos tênis. Que maravilha! Viciei. O que mata são os preços, mas descobri que tênis não é muito diferente de escova de dentes: trocando com certa frequência, pode ser barato. A diferença de qualidade é muito menor do que a diferença de preço entre um bom e um medíocre.

E os pezinhos, não tão pezinhos assim, tamanho 39 bem medidos ou no caso de tênis 40, se refestelam.

Quanto a por meus pezinhos na boca já tentei. Nunca mais.

Nunca mais também meu irmão pra me arreliar.

Só isso dói. Os pés nunca mais doeram.

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