memória

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Salvador-Dali-2

Memória é uma coisa complicada. A gente nem liga muito até começar a perder. Daí a gente começa a pensar no assunto e ver que a coisa é, de fato, interessante.

Eu sabia da memória olfativa. Tenho bastante. Dessa memória me veio o gosto por cheiro de álcool (o de limpeza, não o que a gente toma, que aí a memória é gustativa), o gosto por cheiro de caramelo (chamo isso de memória antecipativa: depois desse cheiro costumava vir o pudim), o cheiro de dama da noite, que sinaliza o verão pra mim.

Tem a memória de nomes e caras, nos quais, sei lá porquê, só sou boa nos nomes. Fácil de lembrar nome e sobrenome de pessoas, raramente consigo dizer se o fulano tem cabelo ou não, se usa óculos ou não, se é loiro ou moreno.

Tem a memória espacial, que eu não tenho nenhuma. Entro por uma porta vinda de uma direção e vou sair por outra, geralmente contrária. Parece boutade, mas quando me mudei para este apartamento, queria ir pro quarto e ia pra cozinha e vice-versa. Conseguia me perder em menos de 90 metros quadrados. Levou um tempo pra decorar a disposição dos cômodos.

Tem também a memória sonora. Aquela que nos faz lembrar de músicas, que nos faz cantarolar mesmo sem saber a letra das músicas.

Essa memória, pra mim, também está muito ligada ao afeto. Negrinho do pastoreio é, para mim, música de ninar. Meu irmão cantava e eu dormia.

O apito do amolador de facas. Me lembra infância apesar dele existir ainda hoje. Realejo: me lembra Anhangabaú. Os pontos de ônibus eram lá e havia o homem do realejo e seu periquito, que puxava uma “sorte” cor de rosa, verde ou azul de umas gavetinhas e dava pra gente.

O pio da coruja. Lembra noite e sítio. E dá um aconchego muito grande.

E sirene de bombeiro e resgate. Confrange o coração pois sinaliza dor e sofrimento. Não sei o porquê, mas ambulância não dá a mesma sensação: ambulância parece que o sofrimento vai terminar chegando num hospital, lembra atendimento possível, acho. Mas sirene dá uma tristeza danada.

Memória faz falta, quando se perde. E bem que eu queria perder quando a lembrança dói, mas aí ela fica, como visgo nojento que você não consegue se livrar. Acho que chamam a isso de rancor, que é aquela memória que só volta pra te fazer sentir raiva de novo. Tenho muita.

Atualmente ando perdendo a memória de bobagens. Esqueço compromissos, esqueço de tomar algum remédio, esqueço pessoas, mas por enquanto, as que eu esqueço e depois lembro – ou me lembram – ainda são coisas das quais não gosto muito. Freud explicaria, mas acho que esqueci também a explicação dele.

Em todo caso, ando reativando aqueles caderninhos de papel, tipo agenda.

Quando eu lembro onde os botei, tornam a coisa toda bem mais fácil…

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