o telefone e eu

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Quando eu nasci, não tínhamos telefone. Também não usávamos muito, porque quase ninguém tinha mesmo. Pra urgências – geralmente tragédias – usava-se o telegrama (será que alguém ainda conhece? Minha mãe gelava quando o carteiro chegava e avisava que tinha um telegrama. Quem será que morreu?).

Pra falar a verdade, até que eu saí de casa, nunca houve lá um telefone. Meus pais só foram ter o primeiro muitos e muitos anos depois.

Bom, quando ainda era criança e me mudei para o Brooklin, num pedaço de ruas com poucas casas, ainda de terra, uma das vizinhas tinha telefone. Coitada! Todo mundo tentava não abusar, mas era inevitável, de vez em quando, ir lá telefonar.

Nas vezes em que a coisa não era urgente, a padaria resolvia. Lá havia um telefone, pago, com fila.

A coisa era tão séria, isso de telefone, e tão cara, que era até brinquedo infantil. Havia uns de plástico que as meninas, principalmente, adoravam ganhar e ficavam horas ali, com aquilo na mão, fingindo ter altas conversas, com caras e bocas. Nunca tive um. Mas bem que quis.

Meu primeiro telefone veio quando já tínhamos filhos. Foi difícil comprar. Dizia-se na época que era um “investimento”. Havia pessoas que compravam vários e negociavam. Era caro, difícil de chegar, tinha que ter a linha no bairro, enfim, só conseguimos ter quando já tínhamos comprado casa e carro. Telefone não era prioridade.

Tanto era caro que as crianças eram ensinadas a não abusar. E na época da internet discada (sim, isso já existiu), a gente ficava de olho patrulhando as crianças. Meu filho mesmo usava mais a internet depois da meia-noite, que a tarifa era menor. Tempos de ICQ, de chats, de blogs.

Depois veio o celular.

E a vida mudou. E a educação mudou. E os bons modos mudaram. E a curvatura da coluna mudou. E a interação entre as pessoas mudou. E as relações humanas mudaram.

Certa vez ganhei um. Não carregava, não punha créditos, não decorava o número. Joguei fora.

Não é muito boa minha relação com telefones. Sei lá, atávico talvez. Sempre que ele toca em casa eu penso, como minha mãe, “quem será que morreu?”.

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