cozinhando reflexões

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Estou fazendo um frango refogado. Naquela fase da “redução”. Ainda outro dia assisti, na TV, um casal de cozinheiros falando sobre a tal da redução. Na verdade, é o que eu sempre fiz, enquanto leio ou faço qualquer outra coisa e tento cozinhar ao mesmo tempo. Dou uma queimadinha até o cheiro se fazer sentir pela casa toda, saio correndo, ponho um pouquinho de água, mexo e fico torcendo pra ninguém perceber as tais “notas amargas”. Se fizer isso algumas vezes, o frango fica bem saboroso.

Mas não estou aqui pra falar dos meus dotes culinários, que na realidade, são poucos. Quero mesmo falar da tal da “redução”.

Fui muito chamada de vagabunda pela minha mãe quando adolescente. No sentido de não fazer as coisas que ela me pedia. Depois que saí da casa dos meus pais, sempre trabalhei bastante. Era uma vagabundagem circunstancial ou meramente geográfica, digamos assim.

Também já fui chamada de outras coisas.

É isso aí.

Quando a gente chama alguém de alguma coisa, como tanto se faz hoje, principalmente nas redes sociais, estamos reduzindo a criatura. A um pedaço de uma coisa. E ninguém é só um pedaço.

Meu pai foi um péssimo marido, mas um ótimo pai. O Chico é um puta compositor, mas, na minha opinião, um cantor medíocre e um literato chato.

Enfim, pra não me estender e gerar polêmicas onde não pretendo, acho que as pessoas são um montão de pedaços. Redução só funciona pra fazer caldos e carnes.

Bolsonaro pode ser sim um marido legal. Ou um bom cantor. Ou um marceneiro de mão cheia.

Lula pode ser um ótimo orador. Dono, no entanto, de uma voz péssima.

E por aí vai. Tangueiros maravilhosos já conheci que são uma verdadeira nulidade no forró. Mulheres lindas já encontrei que morreriam à míngua se largadas numa cozinha abastecida.

As pessoas são muitas e muitas coisas. Definir alguém por uma característica, por uma palavra, definir nossa gama de afetos por somente amor ou ódio, definir o ser humano por atos isolados, características específicas, dotes ou dificuldades ocasionais só torna a vida muito pobre.

E deixa eu sair correndo, porque o frango no fogão já está reduzido o suficiente. Mais um pouco vira incêndio…

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