pequenas coisas ridículas

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Vivemos tempos bicudos. Em todos os sentidos.

Em tempos bicudos, há que se buscar segurança.

Tudo bem, dinheiro dá segurança, ou compra; comida e despensa cheia também, como diziam meu pai e minha mãe, contemporâneos de guerras; família para uns, religião para outros, sei lá, um monte de coisas pode dar segurança para um monte de pessoas.

Eu tenho umas coisas estranhas para me dar segurança. Marido e filhos, alguns amigos, casa própria e despensa cheia, que eu sou bem filha dos meus pais, mas existem outras coisas pequenas, dessas que passam despercebidas pela vida e que quando vão embora a gente se sente assim, meio sem chão.

Minha cachorra medrosa, que morreu ano passado. Cheia de medo, mas eu podia ter certeza que quando ela me olhava nos olhos – o que ela fazia sempre – e me percebia mal, viria e se sentaria ao meu lado. Quanta segurança nesse simples ato!

Comer pipoca doce, daquelas cor de rosa. Custa um real. Ou três, agora com a inflação. Um pacotinho daqueles que existem em qualquer boteco, por pior ou mais longe que seja, me alivia.

Não como sempre. Nem todos os dias. Mas só saber que, se eu quiser ele não vai me faltar, me dá um alívio imenso. E será sempre igual, crocante e doce, quase um abraço apertado.

Meu velho robe de sair da cama. Só lembro dele no frio. Tem cheiro de banho, de talco, é peludo, quentinho. Fica me esperando atrás da porta. Fiel.

Cheiro de padaria. Em qualquer lugar do mundo, é sempre igual. Convidativo, repousante como uma velha trilha conhecida.

São coisas pequenas, vejo agora. Baratas. Coisas materiais, menos o olhar da minha cachorra, imaterial e triste. Mas todas passam carinho.

Em tempos bicudos, há que se armar de portos, aqui e ali, mas ir andando, lutando aqui, quebrando o pau ali, pulando obstáculos mas sabendo que a cada tanto pode-se ter um ponto de apoio.

Fala-se muito em coisas espirituais, em ajuda psicológica, em grupos de apoio. São bons. Mas eu gosto de pensar nas minhas pequenas coisas ridículas, que me seguram a cada tanto.  Um pacote de pipoca, um robe, um cheiro.

As pequenas coisas ridículas me fazem a existência menos.

Ridícula.

Em tempos bicudos.

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