plvs e ps

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Eu fui ensinada a não falar enquanto os mais velhos estivessem falando. Parece que eles tinham prioridade, não sei bem, ou então a algaravia de vozes tornava difícil a conversa.

O caso é que eu falava demais. Num tempo em que havia boletim nas escolas e notas de aproveitamento e de comportamento, eu sempre tirava as piores notas de comportamento. Não que fizesse alguma besteira naquela época – só fui fazê-las um bocado depois – mas falava demais. Minha mãe foi chamada na escola, a professora reclamou. Minha mãe confirmou que eu falava demais também em casa. Não lembro, evidentemente, mas deve ter rolado um suspiro resignado das duas. Muitas vezes eu ouvi esse suspiro da minha mãe.

Daí começaram a me cercear. Só podia falar se alguém falasse comigo, não podia me intrometer em conversa de adultos, não devia distrair as coleguinhas de classe, essas coisas.

Deve ter funcionado essa repressão toda. Passei a falar pouco. Até fazer terapia e soltar a franga, mas isso é outra história.

Se falar demais era tido como falta de educação, escrever bobagens, então, era pior ainda. O papel aceita tudo, é certo, mas a palavra escrita tem força. E alcance.

Por conta de palavras escritas e não assinadas, o clima lá em casa piorou muito entre meu pai e minha mãe. Por conta de palavras escritas e essas sim, assinadas, meu pai perdeu o emprego. Por conta de palavras escritas, rimadas e apaixonadas, eu me apaixonei também. Mas não só por isso, é claro, que só isso não daria conta das décadas e décadas que estamos juntos.

A palavra tem poder. Eu acredito nisso.

Por isso me espanto muito com o que tem de bobagem nas redes sociais da vida. Porque se ao falar a gente é rápido e às vezes nem pensa direito antes (no meu tempo de tagarela nem dava tempo de pensar antes) já escrevendo dá tempo de pensar. De rever e reler.

A naum ser q a gt escreva dp jto que hj se escrv.

Aí não precisa nem pensar.

Nem assinar.

De repente me vejo suspirando com aquele suspiro da minha mãe…

 

PS: apesar de não ser religiosa, gosto de natal. No que ele tem de congraçamento, de tentativas sempre renovadas de sermos pessoas melhores, no que ele tem de união entre pessoas. Então é isso: um felicíssimo natal pra quem é de natal. Que ninguém se sinta só.

 

 

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