mudando de canal

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Li num comentário nas redes sociais que o buliyng é filho do ócio, dando a entender que ele existe hoje por falta do que fazer nas escolas. Era um comentário argentino, mas já vi a mesma opinião por aqui. Faz parte do pacote “antigamente não tinha nada disso”.

Em primeiro lugar, nossas memórias são seletivas. Até por proteção a gente costuma apagar dela coisas que nos são penosas. Outras vezes, esquecemos ou fingimos esquecer por comodismo.

Ainda outras, com o decorrer do tempo e a idade aumentando, a gente esquece sem segundas intenções, conscientes ou inconscientes. Simplesmente esquece e isso faz parte.

O que quero dizer com isso é que não se pode confiar inteiramente em nossas memórias como verdades. Não são nem mesmo as nossas verdades.

Eu esqueço um monte de coisas. E finjo que esqueci outras tantas quando me interessa. De repente, posso esquecer como cozinhar num dia de almoço para muitos, ou esquecer de devolver um livro que tenha gostado demais para quem me emprestou…Fora as coisas que esqueço mesmo e essas nem chego a lembrar que esqueci. São apagadas como em filme de ficção.

Mas lembro de bulliyng sim. Comecei a usar óculos com 10 anos de idade, já lá vai mais de meio século. E fui chamada de quatro olhos sim, inclusive por membros da família. Tanto incomodou que durante muito tempo me envergonhei de usá-los e só o fazia em último caso. Já tomei muito ônibus errado, já copiei da lousa muitas equações absurdas, embora minhas dificuldades com matemática não se devam a isso, tenho que admitir.

Era magra demais. Então fui varapau, esqueleto, graveto, e outros termos que esqueci. Viram? Foi melhor ter esquecido…

Antigamente não era melhor do que hoje. Mas olhando pra trás a gente acha que sim. Porque a gente parecia saber lidar melhor com certas situações que hoje, bem mais velhos, nos assustam. O número de carros, o jeito de atravessar as ruas, as atividades do dia a dia, a tecnologia. Mas acredito ser só impressão. É claro que quem nasceu na era do computador e celular, acha isso muito natural e eu não. Em compensação, gestei e pari dois filhos, cozinho minha comida, passo minha roupa, tudo com bastante facilidade. E bordo, e tricoto e chocheteio. Aprendi tudo isso numa época em que as meninas aprendiam tudo isso.

Minha avó ficava olhando pra televisão impressionadíssima. Eu também, hoje, mas por motivos diversos. Ela se encantava com a tecnologia, mas nunca mudou um canal. Muito difícil, segundo dizia.

Mas nunca a ouvi falando dos seus tempos como melhores. Tinha duas guerras como bagagem e mesmo que quisesse, não conseguia esquecê-las.

Eu também tenho más lembranças que ficam atazanando, impossíveis de serem esquecidas. Mas fazem parte. Testemunhos do passado que afinal construiu o presente.

Tinha buliyng sim. E muita violência. E muita doença que hoje nem faz cócegas, era fatal na época.

Eu já nem sei muito bem “mudar de canal”. É difícil, como dizia minha avó.

Mas também me entusiasmo com as possibilidades.

One thought on “mudando de canal

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