strega nonna

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Talvez meu mal-estar em relação a médicos venha da falta de contato com eles. Eram caros. Na minha infância, absolutamente raros.

Não que não fossem necessários. Hoje, pensando na coisa, penso que minha avó, meu pai e minha mãe talvez tivessem vivido mais e melhor se tivessem ido mais ao médico.

Mas como?

Na falta de grana, os conhecimentos médicos, quer tenham sido eles meras superstições, quer tenham   sido aquele tipo de conhecimento passado via oral pelos mais velhos e que depois se mostraram verdadeiros, era tudo que tínhamos.

Minha avó, por exemplo, era a médica, a psicóloga, a curandeira e a pesquisadora de casa.

Ela mesma tinha a saúde bastante precária, mas, estranhamente, sobreviveu a uma cirurgia de câncer intestinal e só foi morrer muito, muito tempo depois, de derrame.

Mas ela tinha outras coisas: artrite deformante, o que lhe rendeu mãos eternamente fechadas e dedos tortos, que, porém, jamais a impediram de nos fazer carinhos, massagens, e crochê diariamente. E calcanhares rachados, às vezes, até sangrar.

Os calcanhares ela fazia o seguinte: usava sempre meias de lã, mesmo com chinelos, e à noite, para dormir, quando eles ameaçavam sangrar de tantas rachaduras, amassava alguns tomates bem maduros e passava essa pasta neles, deixando lá e dormindo de meias. No dia seguinte tinham melhorado muito. Ainda outro dia li que isso, efetivamente, faz bem. Um hidratante cheio de vitaminas cicatrizantes, quem diria!

Minhas dores de cabeça. Era assim: toda vez que eu saía de ônibus, voltava com muita dor de cabeça. Ela diagnosticava como “mau-olhado” e me dava algum chá, de cidreira, camomila, hortelã ou alguma outra coisa. Passava. Só muitos anos mais tarde, já adulta, é que descobri minha alergia a cheiro de diesel. Houve um tempo em que não podia entrar no ônibus que já me vinham ânsias. Não podia nem mesmo passar em frente das antigas indústrias Matarazzo, onde hoje é o Memorial, que aquele cheiro de óleo me nauseava e me fazia descer imediatamente do ônibus. Às vezes nem dava tempo de descer.

De fato, a ingestão de algum líquido e me aquietar, longe do agente causador do mal-estar, até hoje resolve.

Mas a explicação da avó, de que uma menina, assim tão “bonitinha, levava a muita inveja e mau-olhado” era sem dúvida, mais interessante.

Já não posso dizer o mesmo dos conhecimentos odontológicos. Ter passado álcool em meus dentes, para aplacar a dor, fez-me perder alguns em tempo recorde. Para minha sorte, existem os implantes hoje, mas bem que eu podia ter ficado sem isso. Ou sem eles. Enfim…De qualquer forma, só o conhecimento foi capaz de mostrar que sim, muita coisa que os antigos diziam tinha fundamento e outras não. Algumas, como no caso dos dentes, paguei o preço da ignorância e da falta de dinheiro. Já outras, como a massagem que minha avó fazia em minha lombar, quem paga o preço hoje sou eu: e bem caro, pros massagistas, fisioterapeutas e errepegistas, pra me fazer, afinal, o que ela me fazia com tanto carinho e com mãos tortas.

Ah, essas avós bruxas, quem não as teve?

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