Faz oitenta anos. Ou oito dias.

Standard

Havia um coronelão do interior desta São Paulo. Ele não era exatamente um coronelão, era, por título, um comendador, seja lá o que isso queira dizer. Mas vestia-se e agia como um bom coronelão daqueles do nordeste, sua origem. Rico, ex-fiscal do imposto de renda (que é profissão que não dá pra ficar rico, a não ser que…se é que vocês me entendem), vestia-se sempre de linho branco e botas.

Teve vários filhos. Uns cinco, dos quais três eram mulheres.

Ficou viúvo cedo.

Não teve dúvidas: transou com duas das filhas, meninotas, deixando de lado a menor de todas, doente mental.

Filha é minha. Minha propriedade, seus corpos são meus, fui eu quem fez. Coronelão.

Se as pessoas da cidade sabiam? Sabiam. E admiravam o coronelão, filho prefeito, morador da melhor casa da cidade, na praça da matriz. Dono de fazenda. Dono de terras. Sobre as filhas? Ora, quem não?

Uma das filhas estudou. Magistério, que na cidade não havia outra carreira. Vocação? Nenhuma, mas era o que havia. Coronelão precisava de suas filhas mulheres em casa, pra cuidar da casa e dele.

E um dia ela casou.

Não, não exatamente casou. Juntou, como se dizia.

Afinal, na situação dela, não sendo mais virgem ( estupro? Ora, foi o pai…) que mais ela podia querer? Ou quem mais haveria de querer casar com ela?

Juntou-se com homem separado.

E teve algumas gravidezes.

Abortou todas as vezes. O tal homem separado, generoso ao se permitir juntar-se a ela, moça “desonrada”, não queria saber de botar bastardo no mundo. Cada vez que ela engravidava: “manda tirar”.

E ela tirava. Foi secando o corpo, o olhar, uma pessoa triste e feia. Que cuidou do seu companheiro até o fim, que o sustentou, inclusive financeiramente. E que sempre se sentiu grata.

Porque ele a quis do jeito que ela era, como ela mesma dizia.

Histórias da carochinha?

Não. Juro que não.

One thought on “Faz oitenta anos. Ou oito dias.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *