a escrivaninha do meu pai

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Não, ela não era do meu pai. Era do meu avô. Não sei bem o porquê, mas um dia ela apareceu em casa. Minha mãe se apavorou. Ela era enorme! Botou ela lá nos fundos, numa edícula, onde se botava tudo que não se sabia onde botar.

Passou a ser minha área de pesquisa. Era do tipo de filme americano da lei seca, aquela escrivaninha com tampa de enrolar, onde os mafiosos matavam gangsteres e escondiam dentro da escrivaninha.

Na do meu pai não tinha gangster nenhum. Em compensação, achei coisas incríveis: havia um tinteiro de vidro parecendo um galheteiro de cozinha, onde se colocava a tinta num lado e se molhava o bico da pena que se usaria pra escrever. Eu sabia bem fazer isso: apesar de não ser exatamente centenária, aprendi a escrever, logo no primeiro ano escolar, com pena molhada em tinta. E não podia borrar nada. Era a tortura do século. A tortura da minha mãe foi ficar ajoelhada no milho e apanhar de palmatória. A minha foi aprender a escrever, aos sete anos e pouca coordenação motora, com pena e tinta sem borrar.

Pra evitar borrões, havia lá na escrivaninha, um mata-borrão. Uma espécie de gangorra miniatura com um papel grosso que chupava a tinta em excesso.

Achei lá também um revolver. Não sei de quem era, estava desmontado, com as balas ao lado, na mesma gaveta. O revolver nem dei bola. Nunca me interessaram armas. Mas as balas, ah, as balas! Eram prateadas, pequenas e brilhantes, com a ponta pintada ou esmaltada em vermelho. Quer coisa mais parecida com um baton do que isso? Viraram meus batons prediletos daí pra frente.

Em outra gaveta descobri uma coleção de nus femininos. Não deviam ser do meu pai, pela idade das mulheres. Eram nus do começo do século XX ou fins do século XIX. Eram nus recatados, muitos com colares de pérolas, rosas nos cabelos, cachos, e um olhar pudico. Algumas estavam de calcinhas enormes, de seda. Hoje deveriam valer uma fortuna. Sei lá que fim levaram.

Havia também uma coisa que adorei: uma caixa de papel carbono. Pra quem não sabe, uma folha que se colocava junto de outra e se escrevia, a mão ou a máquina. Essa folha, azul ou preta, reproduzia o que se escrevia na folha de cima. A coisa mais próxima de xerox da época. Amei!

Afora isso havia documentos, jornais velhos, uma lupa. Ela sumiu de casa (a escrivaninha, não a lupa). Não sei bem quando mas provavelmente porque era enorme e havia desagradado minha mãe. E não era saudável nem fácil desagradar minha mãe.

Enquanto esteve por lá, foi meu território. Saudades.

 

 

 

One thought on “a escrivaninha do meu pai

  1. Prezados Senhores(as),

    Solicito; com toda educação, o envio de um e-mail específico ao qual eu possa entrar em contato alguns meses a frente.

    Obrigado pela atenção dispensada à esta mensagem.

    Fernando Tavares
    ww.tavarestraducoes.com.br

    cadmet@bol.com.br

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