13 de agosto

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A mãe dela demorou pra morrer. Uns dois anos. O tempo entre um derrame e outro.

Após o segundo, mais 28 dias. Uma fase da lua. Alguns botijões de oxigênio. Muitas noites sem dormir.

Daí, naquele dia, ela chegou pra gente, no café da manhã, e, sem nenhuma expressão no rosto além de um profundo cansaço, disse: a vó morreu.

Após o enterro, que envolveu vestir o corpo com a roupa previamente escolhida- pela avó, ainda em vida- para isso; após servir a noite toda e boa parte da manhã os parentes e amigos com café e alguma coisa de comer, após voltar do cemitério, toca tingir todas as roupas, aquelas mesmas que usava todos os dias, floridas, de algodão. Tingir de preto.

Proibição de ligar rádio, de tocar piano, por um bom tempo.

E no ano que se seguiu, usar preto todos os dias e noites.

Essa era minha mãe, a que pouco demonstrava no rosto as emoções que sentia, a ponto de muitos acharem que sentia pouco. Aferrada a tradições. A regras. A proibições sociais.

Faria hoje 99 anos.

Quando perguntada por seu aniversário, dizia: agosto, mês de cachorro louco.

Nunca me deixou ter um cachorro.  Também não queria que eu fumasse na frente dela. E, ao saber que eu menstruara pela primeira vez, só fez dizer: tome cuidado, agora você pode ter filho.

Logo eu, que nem sabia como se fazia isso…

Ah, mãe, nunca te entendi. Mas feliz aniversário, se houver algum depois que tudo se acaba.

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