o casamento da Tude

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Eu queria mesmo era saber como era o vestido da noiva. O tamanho da cauda, os babados.

Nossa vida social era assim: feita de casamentos, velórios, um que outro batizado em que houvesse festa.

Família de classe média baixa, da parte de minha mãe composta de italianos ou filhos de. Festas cada vez que alguém se casasse, cada vez que alguém morresse, cada vez que alguém fosse batizado, cada vez que alguém chegasse da Itália. Tinha que convidar todo mundo. E todo mundo ia. Mas era todo mundo mesmo. Haja espaço e vinho e comida pra todos. Eu era criança e não tinha idéia de quem tinha sido Pantagruel, mas se soubesse, podia dizer com certeza que eram festas pantagruélicas.

Sei porque toda vez que voltava pra casa, de ônibus, acabava vomitando de tanto comer. Naquela época os ônibus a diesel fediam pra caramba. Meu estômago já se mostrava, desde a mais tenra infância, a coisa delicada e cheia de mimimi que é até hoje.

Mas dessa vez era a Tude quem ia se casar. Prima em algum grau da minha mãe, moradora, ela e a família lá longe, uns dois ou três ônibus mais longe de casa. Nos Remédios. Fomos todos: pai, mãe, vó, irmãos, só não foi meu animal de estimação porque era muito lerdo. A Raquel, minha tartaruga.

O noivo era alto, mais alto que a Tude que já era bem grande. Ambos magros, coisa normal na época. O rapaz com um bigodinho ridículo (igual ao do meu pai, também ridículo) e o cabelo mantido em ordem a custa de Glostora.

A Tude com um vestido cheio de babados e uma cauda enorme. Daquelas que a noiva chega no altar e a cauda ainda fica vindo. Um deslumbramento pros meus seis anos. Jurei que quando casasse queria uma cauda assim. Ainda bem que juramento de criança não vale muito…

Na festa, comida e baile. Lona no quintal, mesas e mesas cheias de comida, feitas de tábuas e cavaletes. Cobertos com panos que iam até o chão. Eu sei porque eu e a turma que logo fiz de amiguinhos nos metemos embaixo da mesa com pratinhos de doce e fizemos nossa festa lá.

Não sem antes visitarmos o quarto dos pais da noiva onde, postos em cima da cama do casal, estavam todos os presentes recebidos. A norma era essa: abrir os presentes e dispô-los à visitação. Um tal de parente ficar discretamente lendo os bilhetinhos de quem deu o que e depois sair comentando. Não achava uma boa norma pra manutenção da paz familiar, mas parece que era hábito arraigado.

Lembro que nesse casamento encontrei minha tia-avó Maria. E fiquei fascinada olhando pra ela. Bom, não exatamente pra ela, mas para os infinitos pontos negros que havia em seu nariz. Quando perguntei pra minha mãe o que era “aquilo” levei o maior safanão. Soube que eram cravos depois, no caminho de volta pra casa, quando passei por um verdadeiro manual-de-boas-maneiras-em-festas-de-família. Isso acontecia muito comigo.

No baile nem prestei atenção. Nem nas bebidas. Já os adultos sim, prestaram atenção. Sei porque meu pai, na volta de casa, também teve que ouvir da minha mãe o sermão-depois-das-festas-familiares-e-as-regras-de-como se- comportar.  Isso também acontecia muito com ele.

E foi assim o casamento da Tude. Ou minha lembrança dele. Sei lá se a Tude está viva ainda hoje, se ainda mora naquele bairro, nem sei direito se o bairro, Remédios, ainda existe.

Só sei que aquele vestido nunca me saiu da cabeça.

Quem sabe quando fizer bodas de ouro…

 

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