de medo e de maçãs

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O medo faz parte do pacote que é o ser humano. Faz parte de muitos outros seres também. Só não sei se alface tem medo de faca ou pedra tem medo de pé, mas sabemos com certeza do medo que nós temos, de um monte de coisas.

É ruim? Não necessariamente. Por vezes, é através do medo que conseguimos sobreviver. É ele que nos dá forças para correr na hora certa, pra reagir, pra se proteger quando necessário.

Às vezes, porém. Pois este sentimento, que produz reações tão contraditórias, pode também nos fazer fugir do que seria bom para nós, pode nos fazer não tentar o que poderia vir a ser um melhor desenvolvimento, pode nos travar na hora errada.

Por isso, acho sempre bom pensar sobre o medo.

O medo já me travou, já me angustiou, já me fez ter desarranjos estomaco, cardio e intestinais, já me fez quebrar a cara – no sentido figurado e o nariz, no sentido literal.

Por isso, quando eduquei meus filhos, nunca gostei de contar qualquer história dessas que produzem medo. Eles nunca souberam do homem do saco, nunca tremeram com possibilidades de irem pra colégio interno, nunca souberam o que era vara ou cinto, no sentido de agressão. Ameaças que povoaram minha infância.

A gente tentava explicar pra eles o porquê das coisas. Sabendo bem que se eles quisessem fazer aquilo que dava a nós, pais, medo, eles fariam. Mas pelo menos fariam sabendo minimamente o significado da ação deles.

Por sorte, pela educação que tiveram, por acaso, sei lá, mas nunca nos deram preocupações. A não ser aquelas que toda cidade grande proporciona a pais e mães.

Por isso, por experiência pessoal, por experiência como mãe, por ser psicóloga, por gostar de gente que pensa, é que eu sou absolutamente contra a redução da maioridade penal.

Não acho que punição, ou pior ainda, o medo da punição sejam ações didáticas.

O medo não ensina. O medo pode até, dependendo das circunstâncias, atrair a pessoa para o ato não desejado. Não é a toa que, segundo a bíblia, referência de tanta gente, o fruto proibido não deveria ser comido. E foi, não obstante as ameaças. Isso numa leitura quase jocosa, mas existem infinitas leituras desse livro.  Todas contendo ameaças. Todas contendo normas e mandamentos que não devem ser descumpridos sob pena do inferno eterno. E aqueles que seguem esse livro não são diferentes do resto.

Deixemos livros de lado. Um menor delinquente tem que saber o que faz. Matando ou roubando, é bom ele saber as implicações de seus atos. Isso é aprendizado. Isso é viver em sociedade, em minha opinião.

Você saber o que faz.

Agora achar que o medo da punição acabará com as infrações é ridículo. O medo não ensina. O aprendizado da convivência social sim. Eu posso ter vontade de matar meus desafetos, alguns bem devagarinho, dependendo do caso, mas não farei isso. Principalmente porque sei que eles também podem pensar o mesmo a meu respeito. E eu não gostaria que o fizessem. Assim, a vida em sociedade é saber se controlar, saber o que somos: esse pacote cheio de arestas, cheio de veneno, mas também cheio de maravilhas.

Saber escolher é a arte de viver.

E a ferramente pra escolher não é o medo.

É o esclarecimento e a educação.

Difícil, eu sei. Mas ninguém disse que seria fácil.

 

 

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