canto de galo

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Passei a vida toda, bom, quase toda, que ela não acabou, gostando de canto de galo ao longe.

É coisa de infância. Não que eu tenha nascido no interior ou morado em sítio, mas aqui em São Paulo mesmo, na Lapa em que eu nasci e nos bairros que não fossem o centro, era comum haver algum vizinho que criasse galos e galinhas. Minha avó mesma, tão mansa e boazinha, era perita em destroncar pescoço de galinha, depois de comprá-las em chácaras no que é hoje a marginal Pinheiros, altura do Brooklin. E eu tinha que depená-las, ó vida, ó azar…

Mas deixa pra lá que não quero fazer inveja a ninguém que hoje mal consegue ter uma galinha inteira pro almoço de domingo…

Eu gostava de dormir ouvindo os galos, que acordar com as galinhas nunca foi comigo.

Pois quando eu mudei pra cá, bem ao lado do parque da Água Branca, passei a primeira noite acordando de cinco em cinco minutos.

Que raio de galos cantando em plena madrugada era aquilo?

Galo na minha infância só “cantava de galo” pra marcar território e pra avisar às galinhas que era hora de acordar ou de dormir.

Estes aqui do parque cantam o tempo todo, dia e noite.

Tá certo, eles devem ser estressadíssimos, pois no parque não é aquela vida mansa de um galo pra um monte de galinhas. Aqui tem galo pra chuchu. E galinhas. E patos. E até pavão. E nunca tem silêncio de noite como eles estavam acostumados em chácaras nem escuridão total.

Imagino o que esse stress todo deve fazer na cabeça dos galos. E das galinhas que eu bem que vejo a correria que elas dão fugindo dos galos o dia todo. Suponho que à noite também.

Aqui a “galice” deles deve estar sendo testada a todo momento, tal a quantidade de galos por território.

E aí, o que vale deve ser um bom papo, ou diálogo, ou canto de galo, no bom sentido.

Porque aqui, estressados ou não, nenhum deles pensa em fuzil. Apenas expõe suas idéias em canto.

E sim, comem não feijão, mas muita quirera, muito grão, muita pipoca, muito sorvete, muito chocolate, e o que mais as pessoas resolvam dar a eles.

E cantam, noite e dia.

E me fazem repensar, toda noite, de onde eu tirei a idéia de que canto de galo é bucólico.

de quadros e museus

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Ando lendo um (mais um) livro de crônicas do Rubem Braga. Abordando as infinitas exposições e museus em que ele foi e resenhou para algum jornal.

Vou pouco em museus. Sei lá porquê, mas não gosto, afora um ou outro meio insólito. Museu de móveis, museu de roupas, por aí.

Mas é claro que gosto de artes plásticas. E quadros em geral. Uma parede ou casa sem quadros parece comida sem sal. Por melhor que seja, falta alguma coisa fundamental.

Embora os quadros que existiram em minha vida deixassem um pouco a desejar.

Em casa havia uma santa ceia. Em casa e na casa da torcida do Corinthians e do Flamengo juntas. Pelo menos nas de antigamente.

Eu não gostava nem um pouco. Minha mãe mandava eu limpar, de vez em quando, e tinha que ir com uma escova de dentes e limpar cabecinha e pratinho, um por um. Eram doze, como vocês sabem…

Havia também um “preto velho”, uma pintura de um escravo. Embora a sociedade sempre tenha sido racista, parece que antigamente, pretos davam bons quadros. E bons escravos. E tome racismo!

Havia uma pintura de Itanhaém, não sei o autor. E ficava por aí. O resto eram pratos na parede, passarinhos e um horrível par de velhinhos ao telefone, em cerâmica.

Mas podia ser pior.

Sempre pode.

Na casa das minhas tias, mais carolas, havia um cristo dando uma esmola pra uma mãe com uma criança. Enorme. E também um coração de Jesus. Enormes. O coração e o quadro.

E uma Nossa Senhora dentro de uma redoma, com aquele manto azul. Por sorte a redoma era de vidro e essa ninguém mandava eu limpar.

Na irmã mais velha de minha mãe havia o clássico quadro (geralmente ovalado) do casal. Ela ficou viúva duas vezes, então havia dois deles. Era uma fotografia, muito da retocada, onde mal se reconheciam os personagens, retocadas as bochechas e os cabelos. Uns vermelhos e outros pretos retintos, embora minha tia já fosse grisalha no segundo casamento.

Não sei se era assim em todas as casas. A gente era de classe média baixa (hoje a miséria é tanta que seríamos considerados média média) e era isso que havia em todas as casas da família.

Vez ou outra uma fotografia de formatura ou brasão de time. Ah, e as fotos dos bebês em seis ou doze poses.

E é isso. Nada de Volpis, Portinaris ou Tarsila.

Museu é museu.

Vida real é outra coisa.

O que é uma pena.