Pegando no tranco

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No começo de tudo, já lá vão bem mais de dez anos, nos tempos de internet movida a lenha e discada, eu abri o blog escrevendo a cada três dias. Entenda-se: eu não sabia que era tão fácil pensar e digitar, quase simultaneamente, coisa que a internet possibilitava. E também meu curso de datilógrafa autodidata, que começou aos sete anos, numa máquina que havia sido de meu avô. Máquina de escrever, aquela sem corretor e com fita monocromática. Enfim, só pra quem se interessa por arqueologia.

Eu digitava rápido. Pensava mais rápido ainda e falava…bom, quase tanto e tão rápido quanto.

O tempo é inexorável.

Meus dedos já não são os mesmos. Já operei o dedo médio da mão direita, que deu pra ter dedo em gatilho (logo eu que não suporto gatilho em coisa nenhuma) e agora está dando a mesma coisa no anular. Mas não pretendo operar novamente. Se ele desistir de flexionar algum dia, paciência. Vou considerar que é um direito dele, depois de tantos anos de prestação de serviço.

Meus pensamentos, quero crer, continuam rápidos como sempre. Embora a tendência para esquecê-los tenha aumentado muito.

E falar, aprendi com o tempo que no mais das vezes, o melhor é calar. Mas quem vê – ou ouve- de fora, diz que não mudou muito, não.

O que há e que nunca houve, pelo menos em meu tempo de vida, é a pandemia.

Nunca tive de lidar com tudo isso ao mesmo tempo. Governo genocida, eleitores agressivos e limitados, gente se orgulhando de vulgaridade e baixa inteligência, e mortes, muitas mortes.

Eu fui a pouquíssimos enterros na vida. Todos os que pude evitar, evitei.

Mesmo no de pessoas muito amadas, evitei olhar para seus rostos sem vida. Nunca quis reter essa imagem.

Agora está muito difícil. Fico sabendo, vejo pela TV e internet, estão em toda parte.

É muito difícil conviver com a morte. Apesar de ser a única certeza que temos nessa vida, é a mais difícil de aceitar. E mortes que podem ser evitadas, que poderiam nem ter existido…

Tá complicado viver.

Tá difícil navegar.

Vai passar. Sei que vai.

Mas a vida, tal como meu dedo anular que de manhã se recusa a esticar, tem sido assim: tem que tentar fazer pegar no tranco, todo o dia, todos os dias.

Até quando?