San Vitaliano

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Dormíamos, num mesmo quarto, minha avó, meu irmão do meio e eu, nessa ordem. Três camas de solteiro separadas por dois criados-mudos. Acima da cama da minha avó um quadro. 

Com o tempo me foi contada a história que aquele era o santo de devoção da avó, San Vitaliano. Era a figura de um padre ( na realidade papa, mas eu não sabia isso na época) sobre um pedestal, pelo menos era o que parecia. 

Eu era pequena, uns cinco ou seis anos. Quando ia dormir ficava olhando para aquela figura e imaginando histórias. 

É claro que eu não sabia o que era um papa e nem o que era devoção, mas minha avó me fazia rezar com ela, ajoelhada ao lado da cama, o pai nosso em italiano (que eu não entendia nada mas repetia) e depois íamos dormir. 

Aquele San Vitaliano do quadro eu sempre achei que fosse como esses pedintes que eu conhecia de ver no centro da cidade, que andavam sobre um carrinho, sem pernas, às vezes vendendo bilhetes de loteria. Eu tinha pena dele. Ficava imaginando o que era não ter pernas, eu que vivia subindo em muros e correndo. Acabava rezando assim, com pena do San Vitaliano, mesmo sem entender uma palavra do que dizia. 

Há muito pouco tempo descobri a história de San Vitaliano. Devo isso ao Google, meu santo de devoção se eu tivesse algum. Lá diz que ele foi um papa dos anos 600. E tinha pernas, sim. Os quadros que o retratam é que o fazem com ele no púlpito, o que dá idéia da falta de pernas. Só se vê da cintura pra cima. Ele é padroeiro de muitas cidades do sul da Itália.

Hoje, tantos anos passados, tenho ainda muita saudades da minha avó, que se foi quando eu tinha 12 anos. E até do San Vitaliano, que na morte dela foi doado para a igreja da Vila Ipojuca mas que não está mais lá. 

Ele passou de moda ou entrou no ostracismo sacro, se é que isso existe.

Mas é lembrado por mim, mulher de pouca ou nenhuma fé.

Porque ele tinha uma ótima relações públicas. 

A Dona Marianina, de Castelabatte, minha avó.  

tempo

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O ser humano criou a noção de tempo.

E eu achei que sabia o que era isso. Pelo menos tinha noção, digamos assim.

De início, foi bem difícil. No primário, a professora não tinha relógio, veja só! Então me mandava (queridinha da professora…)ir até a sala da diretora ver as horas num enorme relógio que havia na parede.

Eu ia. Tremendo por dentro. Se eu já tinha noções básicas de tempo ( “vem pra dentro, menina, já é hora do almoço” ou “te dou cinco minutos pra arrumar isso daí! ) ainda não sabia ler bem horas. Principalmente com a diretora me olhando. E ela fazia isso (a saudosa dona Jeanette) com laivos de sadismo: ela nunca me dizia a hora, ficava olhando eu olhar pro relógio com um sorrisinho.

Depois aprendi, lógico. E me orgulho de sempre ter usado relógios com números e não digitais. Tá, todos têm números, vocês entenderam…

Tempo de férias passava logo. Tempo de aula de matemática durava o dobro das outras aulas. Sempre foi assim. Tempo passa do jeito que a gente se sente.

O tempo que decorreu da morte do meu pai e do meu irmão demora muito a passar. Parece que foi ontem e não há anos e anos atrás.

O tempo da vida do meu neto passa muito rápido: “nossa, mas ele já está desse tamanho? A semana passada ainda era pequenininho…”.

O tempo atual, desde que começou esta pandemia, tem demorado mais que tudo. Cada dia é uma semana. Cada noite – mal dormida- é um mês.

O tempo que falta pra eu me vacinar, então, chega a durar anos. Por sorte maridão se vacina semana que vem. O que vai durar meses.

Mas o tempo que falta para mudarmos – em plena pandemia e cheio de percalços- tem corrido maratonas.

Tenho pouco tempo e muita coisa pra fazer.

E meus 71 anos vão ter que se virar em séculos, pra dar conta.

E, afinal, tudo isso só pra aliviar, porque dar conta dessa tristeza de pandemia mesmo, vai precisar de muito tempo.

Porque o tempo da dor dura muito a passar.