palavras ao vento

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Eu sempre soube que ia morrer. Eu e todo mundo.

A única certeza que temos.

Mas esta pandemia não estava no repertório.

Convivemos todos as horas com as possibilidades de atropelamento, de doenças fatais, de balas perdidas, de peripaques cardíacos mas a possibilidade de pandemias só aparecia em filmes de ficção. Eu não vivi a gripe espanhola e pouco ouvi falar dela.

Vivi a gripe asiática, que matou bastante gente e nos pôs a todos em casa de cama com febre alta, menos minha mãe. Na realidade, hoje imagino que ela também ficou doente, sim, mas fingiu que não pra poder cuidar de todos nós.

Já tive coqueluche em criança mas me safei. Depois de alguns meses e muitas – arrghhh- injeções.

Esta pandemia é assustadora.

Já passei da fase em que queria acordar e tudo isto ser um sonho.

Agora eu queria mesmo acordar em 2022. E tudo isto ter passado.

Havia um conto, que sempre gostei muito, onde o personagem – Rip Van Winkle- dormia durante vinte anos.

Eu só quero dormir por dois.

Mas isso também é sonho.

Logo eu, que atualmente, não consigo mais dormir nem por um bom par de horas…

castratti

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Minha avó sempre me contava, extasiada, do que tinha sido pra ela conhecer desde o rádio galena até a televisão. Ela ficava maravilhada com o progresso.

Eu também. É incrível o que a mente humana é capaz de fazer, para o bem e para o mal, diga-se.

Eu conheci o LP. Long Play. Desde os do meu pai, que provavelmente tinham sido do pai dele, gravados só de um lado, grossos e pretos até os meus mesmo, de criança, coloridos, de um tipo de plástico translúcido. 

Depois havia também os compactos, de uma música de cada lado ou mais. Os LPs geralmente tinham 6 músicas por lado. 

Sim, porque havia lados. Era necessário virar mecanicamente o LP quando acabava de tocar um lado. 

E as agulhas das rádio-vitrolas, delicadíssimas, que tinham que ser manuseadas com cuidado para não riscar os discos. Motivo pelo qual meus filhos nunca foram autorizados a mexer nos discos até a maioridade. Que eu saiba, sempre obedeceram, o que pode ser provado pelo ótimo estado de conservação dos LPs que meu marido ainda mantém. 

Eu gostei e gosto mesmo é de CD. Não sou muito delicada nem enxergo bem o suficiente pra não riscar disco, então com CD  não tenho problemas. 

Só administrar o espanto das pessoas quando falo que ainda compro CDs. 

E compro. Embora cada vez mais difíceis de achar. 

Não é que não aceite a modernidade ou não saiba lidar com ela. Só não gosto. 

O som de um LP é muito mais “quente”e tem mais alma, se é que posso chamar assim, do que o som de um CD, de um podcast tocado no celular ou qualquer outra coisa. 

São gostos de cada um. Aquilo que nos diz mais. Se eu pudesse e tivesse vivido em reinos de priscas eras, ( e fosse a princesa, é claro) acho que manteria uma pequena orquestra pra uso próprio. Não exatamente como a orquestra de câmara de hoje, mas um pouco maior. 

E um coro. Adoro coro!

E não, não teria castratti em minha corte. Apesar dos músicos dizerem da diferença entre o som de um castratti e de uma soprano, eu, que nem tenho furo na orelha por ser contra mutilações, não aceitaria a castração como método de aprimoramento da voz. 

Não pra aprimoramento da voz. ..