picadas

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Como eu sou da metade do século passado, posso falar de algumas coisas que vocês nem imaginam. Tipo seringa de injeção de vidro. Não descartável. Do tamanho de um elefante. A seringa e a – ô medo- agulha também. 

Não era, a injeção, uma coisa banal. Tomava-se penicilina, pra um montão de usos, mas não era comum como hoje. Farmacêuticos aplicavam, além de médicos e enfermeiros. E os ousados.

Minha cunhada era do ramo das ousadas. Minha avó estava morrendo, entre o primeiro AVC e o segundo que a matou, e havia a necessidade de injeções. Por questão de custo e de facilidade, uma vez que ela estava em casa, acamada, minha cunhada aprendeu. Aprendeu numa batata e em seguida encarou minha avó. 

Não, minha avó não morreu disso nem as injeções pioraram o estado dela. Pioraram o estado da minha cunhada que só faltava chorar cada vez que fazia isso. 

Eu também tive minha época de injeções. Aos sete anos tive tosse comprida ou coqueluche, não sei bem a diferença. Contagiosa, deixei de ir à escola. Vinha um farmacêutico em casa aplicar em mim aquelas injeções do tamanho de um elefante.

Eu sabia quando ele chegava e ato contínuo, ia me trancar no quarto e não abria por nada desse mundo. 

Bom, algum tempo depois de negociação, quando o farmacêutico me prometia o vidrinho da injeção e me dizia que eu podia colecionar ( já naquela época eu era colecionista) eu acabava abrindo. E suportava a dor, porque doía. Doía a picada da agulha e a noção que eu passei a adquirir que eu me vendia fácil. 

Muito mais velha, já neste século, precisei tomar benzetacil. Eu trabalhava, precisava sentar no trabalho e no carro que eu guiava. Banquei a durona e mandei aplicar no braço. Eu precisava da bunda. 

Aquilo entrava e a gente sentia cada mililitro do líquido. Átomo a átomo. Doía pra caramba. 

O braço ficou inutilizado por um bom tempo. 

Depois disso, só tomo injeções na dentista. Não digo que goste, mas é o melhor custo benefício que já encontrei. Só de pensar na dor de um canal tratado sem injeção, eu tomo quase sorrindo. E se for necessário eu mesma peço mais. 

Melhor que injeção de dentista, só peridural. Por conta do custo benefício, de novo. 

Mas peridural só tomei uma vez. No primeiro filho. Na segunda nem deu tempo. 

Afinal, eu posso ser do outro século e durar até hoje (e espero, muitos anos mais) mas a injeção não! 

invejando varandas

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Da primeira que lembro e me marcou muitíssimo, nem foi aqui. Foi em Porto Alegre.

Num antigo hotel, lindo, onde Mário Quintana morou por muito tempo. Já não existe.

Estou falando de uma varanda do quarto de hotel. Fiquei lá por longo tempo, numa noite turbulenta, fumando e pensando na vida. Eu era adolescente. Costumava pensar bastante na vida, buscando saídas. Ou entradas. 

Amo varandas. Não sei se a cena da varanda do Romeu e Julieta teve algum papel na minha vida. Acho que sim, também. Não a do teatro Shakespeariano mas a paródia, com Grande Otelo e Oscarito. Morri de rir. Ser velho é isso, a gente assistiu ao vivo muita gente que hoje mal se sabe quem foi. Uma lástima. Não ser velho, que isso eu gosto, mas não ter visto Grande Otelo e Oscarito em ação. 

Voltando às varandas. Hoje eu queria muito uma. Não pra tomar sol, que nem suporto muito, mas para por minhas plantas. 

Quando me mudei de casa para apartamento, pedi ao corretor que só me mostrasse apartamentos com varandas, desde que não fossem as tais “gourmet”. Fui acabar comprando justo o que não tinha varanda nenhuma. Era o melhor e mais bonito, mesmo sem varanda. Hoje eu fico aqui, sonhando com as tais varandas. 

Onde eu pusesse uma rede, um monte de samambaias que meio que fecham o lugar, escondendo os prédios e o barulho, um monte de flores e trepadeiras. 

Mas não tenho. 

Então, agora na quarentena mais do que nunca, só me resta olhar pelas janelas e ficar invejando quem tem.

E o que vejo? Bicicletas ergométricas cobertas de teias de aranha, móveis velhos encostados, varais de todo tipo, tranqueiras em geral que não cabem ou não devem ser vistas nos apartamentos. 

Nas varandas. 

Naquele espaço mínimo que ainda guarda semelhança com um jardim. 

Mas mesmo assim, que dá uma inveja enorme, isso dá!