viciada

Standard

Vício é uma coisa complicada. Já tive alguns e tenho atualmente outros. 

Já fui fumante, por quase 38 anos. Parei há 20. Sim, não precisam fazer as contas, comecei com 12. 

Por que? Porque não tinha amigas e era muito tímida no ginásio. As meninas mais descoladas da escola fumavam. Aquelas que tinham namorados, as que sabiam o que queriam, as independentes. Ou pelo menos eu achava tudo isso.

Vai daí, comecei a fumar. Não foi difícil, não precisei procurar nenhuma boca de fumo, meu pai também fumava. Com o início do vício em cigarro (um dos vícios mais rápidos de se adquirir) também aprendi a roubar. Eu roubava cigarros dele. Como era Mistura Fina, um quebra-peitos da pior espécie, em breve comecei a tungar as moedas que ele não usava e guardava numa cesta. Ele não tinha – nunca teve- carteira. Não gostava. Então também não usava moedas nem moedeiro porque dizia que só faziam pesar nos bolsos. Enfim, eu usava as moedas pra comprar cigarros de marca melhor do que a dele. 

Parei com esse vicio aos 50. Uma boa data na vida da gente. Até porque eu sempre considerei 50 como a metade da vida. Uma otimista.

Sendo assim, se na primeira metade me deixei levar pelo vicio, na segunda iria ser diferente.

Está sendo. Parei de uma hora para outra e nunca mais voltei. 

Eu também bebo. Vinho. Acho que é vício, embora na quantidade em que beba até os médicos aceitem. Em todo caso, ainda paro sem problemas quando tenho que fazer exames médicos. 

Eu danço, mas não posso me considerar viciada. Dançava uma vez por semana, na pandemia acabou. Consigo suportar, até porque a música ninguém me tirou, e a música veio antes da dança. 

Mas uma coisa que aprendi há muito tempo, que nem dava tanto valor assim, foi aumentando nesta pandemia de forma avassaladora.

Nenhum médico reclamou ainda. Tá bom, a fisioterapeuta manda maneirar, que o meu pescoço, o meu ombro, minha postura, enfim, essas coisas que fisioterapeuta adora reclamar, estão mal. 

Eu sei. Tento fazer pausas. Mas vício é vício. 

Esse, ao contrário do fumo, demorou para engrenar.

Comecei aos oito anos. Minha avó havia morrido e a mãe da minha cunhada, uruguaia passando algum tempo aqui, me introduziu ao vício. Aprendi do jeito dela e até hoje faço do mesmo jeito. No fim da vida dela, ela estava toda tortinha…

Depois deixei de lado. Até quando tinha uns 30 e poucos anos, quando fiz parte de um clube de mães e, devido à minha formação passei a dar uma espécie de palestras sobre educação sexual e biologia. Falávamos de métodos anticoncepcionais, de saúde da mulher, essas coisas. 

Pra não ficar enfadonho, enquanto a gente conversava, mandava ver no vício. Foi aí que retomei o meu, depois de anos. 

E depois, fui mantendo o vício devagar. Como podia, quando tinha tempo. 

Aí me aposentei. Começou a sobrar um pouco de tempo. Ocupar com que? Vício, é claro.

Eu já sou – sempre fui – viciada em ler. Mas aposentada, mesmo lendo mais, ainda sobrava tempo.

Hoje estou aqui, mergulhada no vício, não podendo ficar um dia sem, entrando em crise quando meu material acaba. Procurando via internet todas as bocas pra garantir a compra do material.

Entrando em todos os grupos de internet ligados ao vício. 

Ponto cruz, crochê e tricô. Ah, tapeçaria também, iniciando. 

Só de falar no assunto minhas mãos já começam a tremer…