literatura pro avião não cair

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Quando viajo de avião costumo me preparar com antecedência. Isso significa comprar um monte de palavras cruzadas nível desafio e livros que me ajudem na provação. Não livros de autoajuda mas livros que me ajudem, o que é diferente.

Cada um sabe onde lhe aperta o calo, já dizia meu pai que, como eu, também gostava de provérbios. Um livro pra me ajudar precisa ser cheio de diálogos, precisa tratar de assuntos leves ou tratar de forma leve assuntos pesados. Quando o avião chacoalha e eu me imagino vivendo meus últimos minutos na vida, o que menos preciso é de filosofia ou digressões à respeito da nossa passagem na terra. Eu preciso de tramas envolventes, de muito papo, de situações intrincadas. Quase como livro policial, mas para mal dos meus pecados eu sou ruim de memória. Então não consigo nunca resolver crimes em livros policiais porque ou tenho que fazer diagramas em papel ou simplesmente esqueço o nome dos suspeitos e às vezes até da vítima. 

Livros agitados. Já li Rubem Fonseca, embora o ache um pouco pesado pra avião. Os temas, não o autor.

Já li muito Veríssimo, mas esse é leve demais. De novo, os temas, não o autor. 

Gosto muito de Rubem Braga, mas já li quase tudo dele e se releio não mantenho a atenção da mesma forma que da primeira vez. E aí fico sentindo o balanço do avião. E aí fico refletindo sobre a finitude da vida. E aí não adianta nada estar lendo …

Certa vez um amigo me recomendou Nick Horby. Um achado, mas cansa um pouco com o tempo. Durou algumas viagens só. 

Nesta quarentena também tenho procurado ler coisas mais leves. Mas na falta de sair pra comprar livros e não gostando de comprar virtualmente ( livro pra mim é que nem fruta na feira: preciso cheirar, sentir, ler orelhas e contracapas e só aí pedir: me embrulha meia dúzia…) tenho lido o que estava encalhado na fila de espera aqui em casa. Amei ter conhecido Eric Nepomuceno em livro, já que só o conhecia em entrevistas onde, diga-se de passagem, tinha dele uma impressão ruim. Como entrevistador ele é um ótimo escritor!

Estou lendo Luis Aragon. Em português de Portugal, um livro da década de 30. Uma dificuldade mas interessante. Os bairros elegantes, chama-se. Onde se aprende que na França do século retrasado a diferença entre a Republique e os Jardins em Sampa deste século é pequena. 

Agora bom mesmo pra voar, em todos os sentidos, foi ter lido e relido uns 4 Júlios Verne que tinha na estante esperando a vez. Recomendo. Embora, como sempre em Verne, a premonição esteja presente e isso às vezes me faz ficar pensando em nossa realidade. Mas Verne é Verne. 

Daqui a uns 80 dias teremos feito a volta ao mundo e talvez possamos descobrir que, sim, ganhamos esta parada. 

Em todo caso, preferia estar num balão nesta quarentena.