carnaval

Standard

O ano era 1972.

Um ano de casados, nenhum filho, muito espírito de aventura, pouco dinheiro.

Pareceu razoável viajar para algum lugar bonito. Para baratear, viajar de carro. Aquele fusquinha verde, já velho em 72.

Como disse, era 72. Pra ser mais exata, carnaval de 72. Pra ser mais exata ainda, sábado de carnaval de 72 quando chegamos em Salvador, depois de ter guiado de São Paulo até lá, dormindo num posto de gasolina no caminho.

Só um detalhe nos escapou. Não tínhamos feito reserva em nenhum lugar porque, desconhecendo Salvador e seu carnaval, achamos desnecessário.

A gente além de ter pouco dinheiro e muito espírito de aventura, era ingênuo pra caramba, pra não dizer bobo.

Começou a ronda dos hotéis. Não havia internet (sim, já houve um mundo sem internet) e muito menos Waze ou GPS. Havia o guia 4 rodas.

O problema era que o guia, mesmo em suas indicações mais baratas, ainda era caro.

O jeito foi perguntar nos hotéis que nos pareciam simples.

De pergunta em pergunta, caímos no hotel República, acho. Em plena Avenida Sete de Setembro.

Tinha sobrado um quarto, desistência de alguém. De solteiro. Com só uma cama estreitinha. De fundos. Quase um quarto de gata borralheira, mas achamos foi bom.

De repente, desmanchando as malas, um monte de gente andando de cá pra lá, alguns já usando, outros ainda terminando de fazer suas mortalhas.

Ué, mortalha não é roupa de morto? Deixa pra lá, aqui é não. Aqui é roupa de muito vivo. De pular carnaval, barata e tamanho único.

E aí chegou o som.

O SOM.

Uma coisa que eu nunca havia ouvido e olhe que passei a infância morando ao lado da fábrica da BomBril com seus apitos.

Uma coisa que me pareceu desarmoniosa, dissonante, esganiçada, esquisita, indefinível.

Que é isso, minha gente?

O trio elétrico do Dodô e do Osmar.

Fui à varanda ver. O hotel era tão simples e aquele povo baiano tão alegre, que o pessoal que dormia nos quartos da frente, grandes e com varandas, deixava todo mundo entrar e ficar lá, na beira do desfile, quase encostando nos trios.

E quando saímos pro carnaval, nem precisou perguntar onde era. Foi só seguir a Sete de Setembro e desaguar na praça Castro Alves, embora desaguar não devesse ser a palavra.

Foi na Praça que pela primeira vez na vida eu saí do chão sem asas. Fiquei ali, desesperada(logo eu que tenho pavor de multidões) levantada por corpos e mais corpos, ocupando sim, o mesmo lugar no espaço, contrariando as leis da física, até conseguir voltar pro chão e escapar.

Quando conseguimos andar pelos próprios pés, ainda me diverti vendo o povo dançar, cercado por cordas (na época os blocos usavam cordas pra separar), mijando pelas ruelas (bastando alargar com as mãos a mortalha) e cantando sem parar.

Vi outros trios elétricos e acabei me acostumando com o som, embora não goste até hoje.

E quando voltamos pra nossa casinha na Vila Sônia, descobri, ao procurar a chave de casa, que, sem querer, havia trazido a chave do nosso quarto em Salvador.

Que abriu a minha casa perfeitamente.

Coincidências ou evidências.

Não sei.

Mas que foi bom, foi.