Elas

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Coisas são coisas e gente é gente. Gente tem nome, bicho também. De algum jeito é preciso caracterizar gentes e bichos, pois que são diferentes entre si. Embora eu não distinga um pinguim de outro, mas deve ser pela falta de contato.

O resto, as coisas, são, no máximo, nomeadas pelo ano ou pela marca. Tive uma Brasília azul celeste, logo que foi lançada, que era um horror de carro. Não obstante, nem pudemos escolher a cor, tal a fila de espera.

Mas é isso, coisas são distinguidas geralmente pelo modelo, pela marca, pelo ano.

Gente também, mas tem nome.

Nunca dei nome a nenhum carro, a nenhum objeto, a nenhuma coisa.

Mas tem certas coisas que, não sei explicar, são tão importantes, tão necessárias, que é quase irresistível nomeá-las de forma mais carinhosa, mais íntima.

Recuso-me a dar nome, porém.

Eu as chamo de “elas”. E ao chamá-las assim, as pessoas sabem a quem me refiro.

São de vida efêmera. Alguns meses, talvez nem isso.

Nem sempre eu as encontro.

Nem todo mundo as ama como eu amo.

Mas quando elas se vão, a vida fica mais triste. O resto do ano demora a passar. As cores ficam mais sombrias.

Elas, de presença tão marcante pra mim, são delicadas. Quase etéreas. Quando estão presentes, um leve olor paira no ar. Porque elas não têm cheiro, têm olor, como as heroínas de Alencar.

São minhas lichias.

“Elas”.

 

as coisas

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Eu sou capaz de aguentar situações difíceis por longo tempo. Sou corintiana. Passei 23 longos anos da minha infância e juventude longe de um campeonato, numa idade em que estar no topo, ou pelo menos entre os primeiros parecia ser fundamental.

Pra mim não era. Eu gostava e gosto do meu time. Campeonatos são só consequências. Benvindos, mas consequências.

Mas anda muito difícil aguentar a atual situação de nosso país. Que já foi pior, eu sei, mas numa época em que pelo menos havia resistência, luta e, portanto, esperança de mudar.

Hoje a luz no fim do túnel parece estar depois da última curva, aquela que a gente não vê. Mas eu ainda acredito nela. E gosto dela. Bom acreditar que ela está lá, ao andar nas trevas.

Dizem que falta um projeto. Pode ser. Nem me parece um projeto tão complexo. Saúde, educação, liberdade. O resto a gente vai dando um jeito.

Pessoas aos montes dormem e vivem nas ruas, debaixo de marquises (que caem matando, de vez em quando), comendo do lixo, na maior cidade do país.

Pessoas têm celular e estão em redes sociais, mal sabendo ler e escrever, o que dirá interpretar.

Pessoas que não pensam como a maioria ao lado são maltratadas, hostilizadas, agredidas.

As pessoas têm coisas. E são estimuladas a ter cada vez mais.

As pessoas vão se tornando, elas mesmas, coisas.

Coisas não têm dó nem piedade. Coisas que estragam podem ser trocadas. Coisas velhas devem ir para o lixo.

Se trocarmos a palavra coisas por pessoas, nenhuma diferença fará.

Lembro de Drumond: “ …mas eu não sou as coisas e me revolto…” e me sinto hoje, talvez pior do quer as coisas.

Eu nem sei como me revoltar.

 

da importância da chuva na minha cultura geral

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Se eu estiver com guarda-chuva grande e bota impermeável, não ligo muito pra chuva.

Não costumo, porém, levar esses itens em viagens, embora tenha uma razoável coleção de guarda-chuvas em casa. Se eu paguei por eles- e muito-em viagem, eu trago de volta. Mas, paradoxalmente, nunca levo.

Voltando ao ovo frio (a carne está cara): quando chove e eu estou sem os itens necessários, entro no primeiro lugar que encontro.

Foi assim que entrei no Museu Britânico. Eu não gosto de museus, com raríssimas exceções. Mas a chuva estava forte.

Aguentei ver uma parte do museu que devia se chamar museu egípcio e não de Londres, tal a quantidade de peças egípcias existentes. E, tenho certeza, trazidas sem a anuência dos donos.

As outras partes eu vi pela internet, acessada lá dentro mesmo. A chuva ainda não havia passado…

Assim também já visitei duas vezes o Centro Cultural da Caixa Econômica, o que, aliás, recomendo, mesmo em dias de sol. É muito bonito e interessante. Principalmente o próprio acervo remanescente da Caixa no último andar. Revi todas as máquinas de escrever do meu pai e avô. Quer dizer, as máquinas em que eles escreviam, porque tanto pai como avô só tinham da caixa a caderneta de poupança.

Já entrei em lojas em que nunca entraria. Em bares em que, em situações climáticas normais, nem passaria perto.

Alguns foram boas surpresas, outros só reafirmaram minhas crenças.

Já entrei em igrejas, tal como o cachorro da piada, que vê a porta aberta.

Já pedi para entrar numa guarita de guarda mas não deixaram.

O que me salva dessas incursões, sempre, é que, assim que começa a chover, aparecem vendedores de guarda-chuva. Aqui, em São Francisco, em Paris, sempre houve um camelô que surgiu do nada, como cogumelo.

E, sim, todos, absolutamente todos, os guarda-chuvas sempre foram chineses. Comprados aonde for.

Será que chove tanto assim na China??