de natal, de viagens, de vida e morte

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Leio num site qualquer que o gosto por viajar está nos genes. Não me dou ao trabalho de ler a matéria. Cada vez que algum título cita genética eu já fico com pé atrás, se não for texto científico. Se cita a palavra “gosto” então, fico com os dois pés atrás.

Embora, assim como eu me acabo por viajar, abrindo mão de quase qualquer coisa por isso, por quase qualquer viagem ( o quase boto só pra acalmar meus princípios quase científicos), meu pai também era assim. Mas minha mãe não.

Meu pai aceitava qualquer convite pra viagem, mesmo que fosse sabidamente uma roubada. Minha mãe evitava a maioria deles.

Ele saía com a roupa do corpo, se a pressa assim exigisse e minha mãe levava a casa com ela, todas as poucas vezes em que se dispôs a viajar.

Resultado, já acampei com eles em criança, com meu pai usando por dias  a mesma roupa que ele lavava no mar e minha mãe buscando madeira pra fazer mesa e bancos na areia, sem deixar de lado flores na mesinha. Cada um com suas dores e seus prazeres, não é o que dizem?

Mas não acredito em genética no caso. Acredito em exemplos.

Eu amo viajar, pra qualquer lugar. Já tomei trem com maridão pra conhecer a última estação da linha, na periferia de são Paulo. Ônibus também.

Mas nas viagens longas, de avião, apesar de cada vez levar menos bagagem, não esqueço nunca de arrumar o lugar onde vou ficar como se fosse minha casa. Na chegada e na saída. Faço camas até em hotel. É mais forte do que eu.

Parece que ao tentar transformar lugares de hospedagem em casa, mesmo que só por algum detalhe, me sinto mais reconfortada. Mas adoro sair de casa.

As contradições de cada um.

Porém agora, no Natal, quando boa parte das pessoas viaja, eu viajo nos meus mortos.

Tenho hoje mais família morta do que viva, o que mostra que estou velha e eu mesma mais pra lá do que pra cá.

Mas essa viagem, a última, não desejo fazer.

Não sem antes conhecer o expresso Paris- Moscou, a África, a muralha da China, a ilha de Páscoa e um monte de outros lugares, sem esquecer lençóis maranhenses, ilha de Marajó e Havana.

Isso demandará tempo. Muito tempo.

Dentro em breve faço setenta. Minha antiga meta de cem anos talvez não dê conta de cumprir esses objetivos.

E é aí que entra a genética do começo do texto de novo.

Não basta o gosto por viagens, cientistas de plantão, há que se estender a vida humana.

Mesmo que em certos momentos políticos como o que hoje vivamos, a gente queira morrer ou matar.  Enfim…Feliz Natal!

 

mamãe noel de olho puxado

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Existem pessoas que marcam nossa vida. Às vezes são parentes próximos, às vezes não.

Ela não era nada minha. Minha mãe dizia que poderia ter sido minha madrinha se a conhecesse na época. Mas não foi.

Ela era exótica no meu universo de criança porque, apesar de eu ter nascido em São Paulo, e, portanto, estar rodeada de japoneses na escola, nas ruas, por toda parte, não tinha nenhum japonês frequentando nossa casa. Só ela e família.

Dona Aparecida. Sim, ela era japonesa mas tinha um nome “brasileiro” também. Nunca eu soube seu nome real.

Ela veio para casar. Não conhecia o marido, arranjado pela família. Ele japonês também.

Teve uma única filha. Contavam, mas é claro, eu nunca pude comprovar, que o casamento desandou após o nascimento dessa filha. O que eu podia sim, comprovar, era que o casal, estranhamente, não dormia no mesmo quarto. Em ambos os quartos havia altares e, para meu espanto, com comida na frente, em tigelas. Tudo naquela casa me parecia espantoso e espantosa era também minha curiosidade, xeretando todos os cômodos.

Eles eram fotógrafos e moravam no Pari. Marido, mulher e filha.

A filha única, obesa mórbida numa época em que nem se sabia que isso era doença, gostava muito de mim e de brincar. Tinha uns 15 anos mais que eu mas era a criança com a qual eu brincava quando ia lá, sempre nas festas de fim de ano.

E que festas! No estúdio de fotografia, um grande salão, era armada uma mesa enorme em cima de cavaletes e em volta dela se ajeitavam os funcionários, parentes e amigos dela, da dona Aparecida. O marido era o chefe da casa mas quase não falava. Ela ria e falava pelos cotovelos. Tinha alguns funcionários e vizinhos que moravam em casas alugadas por ela. Acho que naquele tempo fotografia dava algum dinheiro.

Metade da enorme mesa continha perus, presuntos, e coisas de natal brasileiro. A outra metade continha comida japonesa. Eu amava os doces japoneses: de feijão e balas bonitas. Amo até hoje. Mas nunca consegui comer um sushi.

Ganhei presentes incríveis de natal dela. Incríveis porque eram os únicos verdadeiros presentes. Em casa eu ganhava sapatos marrons ou azuis marinho escolares e olhe lá. Apesar do meu aniversário logo depois do natal.

Dela ganhei minha primeira máquina fotográfica, minha primeira boneca (e única, eu nunca gostei de boneca), jogos de armar, o tecido chiquetésimo do vestido de minha primeira comunhão, bombons. Quando ela vinha nos visitar, pouco antes do natal, era a chegada do papai noel pra mim. E para os outros também, que ela nunca esqueceu ninguém.

Hoje acho que morreram todos. Perdi o contato. Já voltei ao Largo do Pari tentando achar o estúdio deles. Não existe mais.

Minha mamãe Noel se foi. Aquela que me tratava como afilhada. Não sem antes me deixar o álbum de fotos do meu casamento.

Mas isso faz tempo. Quase meio século.

Aparecida Yae. Talvez ela gostasse de saber que hoje eu também gosto de fotografar. E continuo comendo moti e manju. Só sushi não dá.